terça-feira, 31 de março de 2009

Belo Horizonte

terça-feira, 31 de março de 2009




Era já a quinta vez que mamãe ligava para a casa de minha irmã, que mal saíra das núpcias, enquanto eu ouvia perplexo a repetição do mesmo assunto, das mesmas queixas na voz chorosa de D. Anita, cujo exercício predileto parecia ser arrumar tempestade em copo d’água nas ocasiões mais banais. Enquanto ela falava aflita e desordenadamente, eu imaginava o que estaria minha irmã pensando do outro lado da linha, sendo que minha mãe não lhe dava tempo para falar. Era pergunta seguida de pergunta, sem uma mínima pausa para respiração ou para uma possível resposta por parte da minha irmã. Engraçado que, alguns anos depois, Janaína e eu riríamos muito daquela história, perante a conclusão de que, naquela ocasião, o desespero da minha velha talvez pudesse ter sido bem menor, caso ela houvesse permitido que minha irmã lhe desse alguma resposta. “Vai que eu sabia o que estava acontecendo?...”, dizia Janaína, divertida. Minha mãe, porém, permanecia séria, impassível, sem demonstrar divertimento diante do escárnio de Janaína. D. Anita não era de brincar com coisa séria, por mais tempo que aquilo tivesse se passado.

- Está há quase três semanas assim, minha filha! Não responde nada do que eu lhe pergunto. Não demonstra nada nem no rosto. – Enquanto falava, mamãe olhava para mim, verificando se minha expressão apresentava algum tipo de alteração diante do seu diálogo com Janaína. Frustrava-se. – Parece que não ouve nada, parece alheio a tudo a sua volta. Você sabe de alguma coisa, minha filha? Será que ele fez uso de algum desses pozinhos? Deve de ter acontecido algo na escola, ou no trabalho. Você tem idéia do que pode ter ocorrido, filha?

Ao final do monólogo, conforme eu soube mais tarde, minha irmã sempre recomendava que minha mãe tivesse calma, que parasse de tentar forçar um diálogo comigo e que aguardasse uma manifestação minha. Eu confesso que sentia pena ao ver minha mãe retornar o telefone para o gancho, num suspiro que cortava o coração, voltando a fixar o olhar tristonho na minha pessoa. Eu, porém, permanecia quieto, sem dizer uma só palavra, mantendo os olhos fixos no rádio que apresentava o noticiário das seis. Nessa época, nós ainda morávamos em Raul Soares, e permanecíamos sozinhos, minha mãe e eu, já que meu pai conseguira trabalho em Belo Horizonte. O noticiário eu escutava no rádio, o que era um dos poucos passatempos que tínhamos nos momentos de folga, pois faltava-nos televisão. Telefone tínhamos, graças ao meu cunhado, cujo espírito relativamente modernista dizia que devíamos acompanhar os progressos da civilização.

- Filho, ocê tá precisando de alguma coisa? – dizia minha mãe, com voz mansa, os olhos lacrimejando. – Tá acontecendo alguma coisa, meu filho? Pode contá pra mim.

Eu nada dizia; apenas lamentava as lágrimas da minha mãe. Já há alguns dias eu permanecia em casa. Nesse tempo, eu estava trabalhando como servente na colheita de café por aquelas bandas. Às vezes aparecia alguma coisa, algum trabalho, mas era raro isso, e eu sabia, no meu íntimo, que mais cedo ou mais tarde, e para tristeza de minha mãe, teríamos que partir todos para a capital. Minha velha, porém, considerava inaceitável a idéia de abandonar aquele local, devido ao fato de ali, naquela pacata cidadezinha de Raul Soares, estarem enterrados os seus pais e uma irmãzinha minha, e eu acreditava, realmente, que ela acabaria por juntar-se aos seus mortos quando chegasse o momento da nossa partida.

- É, menino... – dizia a minha mãe, sem concluir a frase, e se retirava para a varandinha que havia na porta da cozinha, onde ela chorava e chorava. Conforme já disse, há alguns dias eu estava em casa, sem comer nem dormir direito. Apenas ouvia o rádio. Nos primeiros dias do meu silêncio, eu ainda ia à cidadezinha próxima, apanhar café nas terras do Seu Do Carmo, mas lá todo o mundo queria conversar comigo, saber o que estava acontecendo, como se alguma coisa tivesse realmente que estar acontecendo. Então eu parei de trabalhar e fui para casa, o que fez mais forte o sofrimento e preocupação de minha mãe, mas eu nada podia fazer quanto a isso. Tudo o que fazia era ficar ouvindo o noticiário. Às vezes, no finzinho da tarde, dava-me na cabeça de ir para o pasto, a fim de ver as vacas passarem. Eu chegava e, após alguns minutos trepado na porteira, elas apareciam, em fila indiana. Pareciam não me notar, mas, independente disso, elas pareciam, assim, passando tão vagarosas por ali, tão carinhosas, tão felizes de existir. Vez e outra eu dava nome a algumas. Gertrudes, Betina, Mirabel. No dia seguinte, no entanto, todas elas pareciam muito iguais, e eu não sabia mais quem era quem.

E foi voltando de uma dessas minhas excursões ao pasto que percebi, ao chegar em casa, que minha mãe estava ao telefone. Deduzi que devia de ser Janaína do outro lado da linha, ouvindo pela sexta vez as lamúrias de minha mãe. Era aí que eu me enganava. Após alguns segundos dei-me conta do meu pai do outro lado, sendo que minha mãe solicitava a sua volta. Fiquei irado com a atitude da minha mãe. Como podia ela perturbar o meu pai, que estava a quilômetros de casa, com coisas tão bobas, tão desmerecedoras de atenção? Minha mãe sequer percebia a minha presença no canto da sala, se bem que ela não ia mesmo interromper a conversa caso tivesse me visto ali. Meu pai parecia recuar.

- Ele já não fala há semanas. Deve de ter tomado alguma coisa, ou deve de ter acontecido alguma coisa na rua. Todo mundo tá comentando. Quando chega de tardinha ele fica lá no pasto, observando as vacas passarem. Parece doido! – E retomava à expressão aflita. – Cê tem que voltá, Jão. Não sei mais o que faço com esse menino... Quê? Num pode? Mas ele já não fala há...

Eu ficava satisfeito. Não queria que meu pai voltasse. O que minha mãe tentava resolver com súplicas a minha pessoa, lágrimas e sucessivas ligações para a casa da minha irmã, meu pai tentaria resolver no tapa, embora eu soubesse que isso não adiantasse de nada. O meu pai não voltou. Não nesta época, não por isso, visto que ele só voltou mesmo após longo tempo, quando a coisa em nossa casa começara a apertar, a fim de buscar a família – minha mãe e eu – para levar para Belo Horizonte. Minha irmã foi quem acabou ficando por lá, com o seu marido e filhos, sem jamais ter voltado a ver o meu pai em vida, que há anos não falava com ela.

A pior de todas as formas de ajuda das quais minha mãe tentou nesse meu período de recolhimento foi convidar lá pra casa umas rezadeiras. Às oito horas da noite do meu quinto mês de recolhimento, chegaram elas, com seus respectivos terços e livrinhos de reza. Não me incomodavam muito, enquanto faziam suas orações na sala; mas quando foram ao meu quarto, onde eu estava ao lado do meu velho rádio ouvindo o noticiário, e começaram a aspergir água benta por todo canto (minha mãe estava entre elas, claro), eu tive ímpetos de gritar, de bater em cada uma delas; mas eram senhoras e não mereciam ser desrespeitadas na sua fé, sem falar que, com tal atitude, eu estaria infringindo as regras que eu mesmo me impusera naquele período. E, para dizer a verdade, tranqüilo eu sempre fora, e muita coragem faltava-me para fazer mal até mesmo a uma barata.

Para o desgosto meu e dos meus familiares, os dias foram correndo assim. Recebi visitas de benzedeiras, rezadeiras, de um jovem padre efeminado e até de uma senhora que, diziam, fazia amarração por aquelas bandas. A visita da tal benzedeira foi uma das mais engraçadas, visto que a mulher bocejava, às vezes forçosamente, à cada frase da oração que fazia, num cochicho. Todavia, a graça era acompanhada de um ligeiro tremor, à lembrança de uma ocasião em que meu cunhado, que é protestante, dissera-me que quando as benzedeiras rezam em voz baixa, elas estão na verdade consagrando a alma da gente ao demônio, que não nos larga nunca mais, e a partir daí eu fiquei sempre pensando se o demônio teria ou não se apossado da minha pessoa, e fui fazendo minhas rezas.

No meu tempo de silêncio, porém, nem reza eu fazia. Acho que minha mãe pensava que, quando eu estava sozinho, eu devia de cantar, de fazer uma ligação para alguém ou coisa do tipo. Até já a havia percebido me observando do canto da sala, enquanto eu ouvia o meu bom e velho rádio. Engano dela. Eu não me mantinha em silêncio por pirraça, nem por brincadeira e muito menos estava com raiva dela ou de alguém. Não conversava porque não queria e assim permanecia em todo e qualquer momento e lugar, perto ou longe da minha velha. Todos pensaram que aquilo duraria por todo o resto da minha vida.

Uma esperança surgiu, no entanto, quando o Sr. Tomás, dono da única venda que existia naquela cidade, incumbiu-se do encargo de mandar chamar um médico residente na cidade para verificar o que podia estar me acontecendo, já que ele, Seu Tomás, pegou-se com a idéia de que eu devia de ter alguma coisa na garganta, alguma inflamação ou dor forte, possível motivo até de operação. Isso fez com que minha mãe e minha irmã, que por essa altura já estava igualmente aflita, ficassem parcialmente felizes. O que não durou muito, já que éramos pobres (e felicidade de pobre dura sempre pouco). O médico foi a nossa casa, pediu que eu abrisse a boca, o que eu fiz com certa relutância. Era um homem alto, um pouco calvo, apesar de jovem. Seus lábios permaneciam constantemente curvados em um sorriso, o que levou D. Anita a não dar muita credibilidade ao seu trabalho. “Jovem e risonho, ora essa! Médico pra mim tem que ser sério”, disse ela à Janaína, em ocasião posterior. Terminada a consulta, na qual o jovem médico pedira sem sucesso que eu fizesse alguns sons, ele meneou a cabeça, encarando minha mãe, que implorara a Deus que fosse doença ou coisa que o valhesse aquela minha esquisitice.

Não era nada daquilo.

E assim, continuavam as inúmeras visitas de famigeradas figuras do ramo do contato com o sobrenatural. Umas bizarras, outras fervorosas nas súplicas que faziam a Deus nos Seus títulos mais desconhecidos. Vez e outra aparecia uma pessoa bem tranqüila, calma, semelhante a esses profissionais que hoje estão tão na moda, chamados psicólogos. No geral, porém, eram pessoas estranhas, as quais eu jamais havia visto, o que me deixa hoje com a impressão de que, naquele tempo, confinado em casa, eu acabei por tomar conhecimento do mundo inteiro. Surpresa tive quando Seu Tomás aparecera lá em casa, trazendo alguns mantimentos para minha mãe, cuja aceitação também me surpreendeu. Minha mãe sempre jurava contra aquele homem que, diziam, mantinha relação promíscua com duas mulheres – a mulher e a filha – mas agora minha mãe fechava os ouvidos aos boatos e os olhos às suspeitas, tomada de imensa gratidão pela atitude de Seu Tomás.

Visita dele, porém, foi apenas essa, ocasião na qual o homem sentou-se ao meu lado na varanda, pediu a minha mãe que se retirasse, e prendeu-me a atenção num intenso monólogo sobre a vida. Muito me admirava o esmero da fala daquele homem, cujos avós, já me dissera minha mãe, haviam sido pessoas de muita formação, e eu começava a imaginar como seria se Seu Tomás fosse meu pai. E a “conversa” enveredou-se por decepções amorosas, cansaço, briga com rapazes mais fortes etc; porém, sem exigências, sem perguntas e reclamações. Seu Tomás muito me impressionava.

Ao fim e ao cabo eu permanecia o mesmo. Silencioso, quieto, reticente, o que despertava a ira do meu pai, embora ele nunca se manifestasse pretendendo voltar. Tudo o que sabia, sabia pelos gritos da minha mãe que, passado algum tempo, começava a se acostumar com aquela minha idéia, por mais doloroso que isso lhe fosse. Já não conversava comigo, mais nada perguntava e nem chorando eu a via. Mas eu sabia que por dentro ela era um desespero só e devia de estar se preparando para jamais rever o filho que eu outrora fora.

Mas assim não foi, o que é lógico. Nenhuma pessoa normal podia se manter em silêncio por toda uma vida, e eu me considerava uma pessoa normal. Tanto que, passado um ano e alguns meses de recolhimento, eu levantei cedo e, dando com minha mãe na cozinha, pedi-lhe a benção, como eu sempre fizera desde menino. Minha mãe ficou numa alegria só. “Graças a Deus! Graças à Virgem!” Minha mãe me abraçava e louvava a Deus como eu não a via fazer há muitos anos. Logo, ela foi para a cozinha e fez brôa, doce de mamão, doce de abóbora que eu adorava. Chamou a minha irmã e meu cunhado para tomarem o café lá em casa. Aos gritos e risos ela comunicou o “milagre” ao meu pai numa ligação que ele fizera, a qual ela esperava ansiosa. Tudo era uma alegria que só vendo. Tanto que não restou lugar a questionamentos, perguntas e reprimendas. De quando em quando Janaína e meu cunhado davam-me um tapinha nas costas, numa divertida censura, mas logo riam e punham-se a contar-me as novidades sobre os seus meninos e sobre aquele que estava por vir. Mamãe saía pela casa cantando, alternando-se entre as canções do Roberto Carlos, que começavam a fazer sucesso, e hinos aprendidos nas missas de domingo. Muita gente daquelas bandas apareceu lá em casa.

Boas recordações aquelas; mas àquela cidade mesmo eu nunca voltei.

Com o passar dos anos aquele período desgostoso do meu silêncio parece ter caído no esquecimento, sendo que nada ninguém comentava comigo. Apenas após um bom tempo, quando já encontrávamo-nos instalados em Belo Horizonte, o assunto voltou à baila para retornar ao túmulo logo em seguida, numa conversa com minha mãe e irmã.

- Filho, sabe aquele dia em que você voltou a falar depois de mais de um ano amuado?

Eu assenti, sério.

- Sabe que naquele dia eu fui à venda do falecido Seu Tomás para perguntar se ele imaginava o que poderia ter acontecido com você para ter ficado daquele jeito?

- É mesmo, mãe? E o que foi que ele disse pra senhora? – Eu perguntei, curioso.

- Ele disse: “Não sei.” – E eu logo imaginei a cara do Seu Tomás, erudito, profético. – “Mas existe muito mais coisa entre o céu e a terra do que a senhora imagina...”





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