domingo, 8 de março de 2009

Texto para se vingar de Arthur

domingo, 8 de março de 2009



Arthur, se você está lendo esta carta, é porque está naquele que foi o nosso quarto, tendo já passado pela sala e dado falta de alguns objetos e ruído de criança pela casa. Certamente percebeu também a ausência de cheiro de comida e estranhou o fato de haver apenas a luz da varanda acesa... A varanda em cujo peitoril por tantas noites te esperei, horas e lágrimas a fio... Hoje, porém, Arthur, não o espero mais, não preparei a sua janta, não passei suas roupas para que você fosse para o trabalho amanhã, não apanhei seus jornais. Tão-somente lembrei-me de deixar acesa a luz da varanda para que, quando você chegasse zonzo pela bebida a planejar suas investidas atrozes sobre meu corpo, não saísse por aí tropeçando a ponto de se machucar e conseguisse ao menos conduzir-se até a porta da sala. Que fique claro, portanto, Arthur, que a luz da varando é a última lembrança que você tem da minha atuação submissa e devoção para contigo. Da porta da sala para dentro você encontrou-se sozinho pela primeira vez em anos, Arthur.

Olha, Arthur, e não me venha brigar pelo menino. Apanhei-o no colégio hoje cedo e, sem lhe dar maiores explicações, ordenei que arrumasse as próprias coisas. Bem que o pobrezinho insistiu, mas mantive-me impassível. Ele tem que aprender desde logo que o fato de ser homem não o torna digno de explicações da parte de nenhuma mulher. Duvido que isso lhe interesse, mas... o menino perguntou por você, sim, ao que eu lhe respondi prontamente e com orgulho que o seu pai havia morrido tragicamente para nós. Ele não me fez nenhuma pergunta, tampouco demonstrou ímpetos de chorar. Apenas fez um gesto afirmativo com a cabeça e foi apanhar as suas roupas e brinquedos.

Olha, Arthur, não me venha dizer que o menino precisa da presença do pai para aprender a ser homem, como por tantas vezes você disse. Presumo que agora sim lhe será dada a oportunidade de tornar-se um homem de fato, longe da bebedeira, do hálito fétido do pai ao chegar em casa a altas horas, longe dos amigos imundos que o pai trazia para casa aos domingos, longe da violência, das agressões que, por vezes, sei que ele escutou do seu quarto, em lágrimas provavelmente, enquanto eu, mais uma vez vítima da sua insanidade provocada pelo álcool, chorava também enquanto o seu membro monstruoso dilacerava-me a dignidade.

Como você é péssimo de cama, Arthur. Como suportar-lhe deve ter sido custoso para as prostitutas com as quais você dormiu enquanto eu o esperava em casa, sozinha, desesperançada, exausta... Como foi doloroso para mim, desde a primeira noite, suportar-lhe a falta de carinho, a falta de rigidez, a falta de consciência de que você tinha sob si uma mulher e não um objeto ao qual você pudesse tratar como trata o seu carro ou o seu televisor. Como eu quis voltar para a casa de mamãe logo na primeira noite, Arthur...

O nosso filho tornar-se-á um homem, sim. Um grande homem, aliás. E se por ventura tornar-se um veado da pior espécie, que seja. Antes um veado digno que um homem na perspectiva daquele a quem um dia chamou de pai.

Olha, Arthur, eu vou lhe confessar: por tantas vezes eu desejei mata-lo; por tantas vezes eu desejei acomodar uma faca sob os travesseiros e atravessar-lhe com ela a garganta enquanto você ofegasse sobre mim; por tantas vezes eu desejei vê-lo morto, Arthur... E não pense que eu não o fiz por amor ou por pena de você. Não. Se não matei-o foi pelo meu filho, que, tendo já o trauma de um pai violento, não precisava da lembrança de uma mãe assassina. Mas você merecia morrer, Arthur. Merecia morrer por tudo aquilo que matou dentro de mim, merecia morrer por todo o amor que eu quis obstinadamente lhe dar e você ignorou, merecia morrer por haver-me furtado os sonhos e ilusões que eu tinha na minha juventude, Arthur...

Sim, confesso que o amei. Talvez não tenha amado exatamente a você, mas ao homem que por tanto tempo eu esperei que fosse. Eu o amei, Arthur. Amei-o de maneira de tal modo insana que, na noite seguinte a um espancamento, eu acendia a luz da varanda, debruçava-me no peitoril e esperava que, dentro em pouco, entrasse pelo portão um novo homem, trazendo-me rosas, pedindo-me perdão e prometendo-me uma nova vida. Este homem a quem amei jamais veio, Arthur, e jamais viria caso hoje, ao ouvir o despertador, eu não me levantasse dolorida e tomasse uma decisão.

Sabe, Arthur, eu quero entregar-me a outro homem. Eu quero pertencer a outro o mais breve possível. Não digo pertencer no sentido de comunhão de bens, convivência sob o mesmo teto. Não. Digo união no sentido de comunhão de corpos. Quero ter a certeza de que nem todos os homens cheiram à bebida ou agem com violência. Quero ser de alguém que me possua como homem de verdade. Ouvir “eu te amo” eu não quero de ninguém, pois não mais permitirei iludir-me. Mas eu me entregarei a outro, Arthur, e faço questão de que você vislumbre em sua mente, sempre ao deitar-se, a imagem do meu corpo sob a de outros homens, feliz, saciada, mulher...

Então, Arthur, encerro aqui. Já levei tudo o que é meu, portanto não mais precisarei retornar a esta casa. Ah, ia-me esquecendo de orientá-lo a não assustar-se com as suas camisas devidamente recortadas à tesoura sobre a cama ou com as fezes do nosso cão dispostas na geladeira. Adeus, Arthur. Adeus e não sinta falta de mim. Caso sinta, não sofra, não chore (pois em bem sei que você chora quando está bêbado. Parece um vira-latas com fome...). Apenas seja homem, levante-se, vá até a varanda e fique lá, olhando a lâmpada acesa a iluminar as plantas que por tanto tempo e insistentemente eu reguei. Olhe a luz da varanda e reflita nela o último sinal da minha humilhação para contigo.

O nosso cão, Arthur, eu também levei...





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