quarta-feira, 1 de julho de 2009

Algumas viagens

quarta-feira, 1 de julho de 2009

O texto que eu trago hoje é na verdade uma crônica, produzida em ocasião de uma visita que fiz à Cordisburgo, a belíssima terra do grande Guimarães Rosa, no ano de 2006. Mas eu não fui só. Eu tinha a companhia dos meus tão queridos colegas de turma do Curso de Letras; além dela, eu tinha dentro de mim a emoção de estar naquele lugar e a paixão por alguém que não estava lá. O texto dispensa maiores comentários. Grande beijo.

  
Algumas viagens

Antes de se chegar à rua Padre João, 744, é preciso despir-se de certas impurezas adquiridas durante toda uma vida que antecede essa viajem. A cidade, onde se encontra esse endereço é pequena demais para suportar a tamanha poluição da cidade grande, com os seus carros, indústrias, pessoas cabisbaixas e ligeiras no seu caminhar... Lá, na terrinha da qual falo, não tem essas coisas. Lá parece haver a pureza fundamental para se viver bem, creio até que essa pureza da qual falo seja a essência de cada pessoa, de cada lugar, de cada objeto dessa cidade; lá tem rosas, e essas as crianças aprendem a valorizar desde muito cedo, cultivando-as com um preciso cuidado para que elas jamais percam o seu perfume. E o mais curioso é que toda essa pureza é tão evidente que um dos grandes homens que ali viveu chamou-se João. Simples, direto, apenas João, antecedendo uma palavra ainda mais pura e mais bela, tida assim como um nome próprio – Rosa.

Porém, a beleza exuberante dessa cidade só pode ser conhecida através do tom poético das palavras, pois, se alguém for até lá esperando encontrar arquiteturas grandiosas e belíssimas paisagens certamente se frustrará; mas, pensando bem, talvez isso seja bom, pois trata-se de uma frustração que surpreende e fascina; uma frustração da qual nunca ouviu-se falar se não se tiver ido à essa cidade; uma frustração da qual todo ser humano devia ter conhecimento, a fim de conhecer a verdadeira e essencial beleza das coisas... Uma casinha aqui, uma venda alí, uma igreja acolá... Mas lá, na rua Padre João, há uma grandiosa casinha pequena, simples, imponente naquela ruazinha tão simples. Depende da forma como se olha aquela casa, porque para muitos ela pode ser despercebida, enquanto para outros... Ah! Esses são tomados de tamanha ansiedade enquanto estão à porta, ansiedade para entrar mesmo, e atemorizados ao mesmo tempo, pois sabe-se que, ao entrar ali, jamais será possível retornar daquela viagem e ficaremos viajando pelo resto de nossas vidas. E, de repente, ainda à porta, somos acometidos pelo mesmo sentimento que nos apertara o coração na primeira arrancada do transporte. Aquele sentimento de que, há quilômetros de distância, deixou-se algo ou alguém; aquele sentimento de que um novo e surpreendente mundo está prestes a se abrir a nossa frente, e isso nos leva a dois novos sentimentos que são os de nostalgia e de estranho contentamento.

E então, como as visitas inesperadas de domingo, nós entramos naquela casa, dando início à mais inúmeras viagens. Entramos. Pela sala, curiosos, olhos atentos a perscrutarem cada ponto da casa como a esperar por grandiosas surpresas. E, de repente, FLASH. A tentativa de, futuramente, resgatar algo daquela viajem. FLASH. A obstinada busca do ser humano em resgatar os bons sentimentos do passado. E FLASH de novo (credo!), mas os retratos guardam tão pouco! Creio que a memória contém uma imagem de melhor qualidade. Pode ser mais fosca ou mais brilhante e, se a pessoa não se recorda de certas ocorrências passadas não há problema algum, ela pode fantasiar afinal. Tem fotografia melhor do que essa? Pobres dos meus caros fotógrafos e turistas que, de tão preocupados que ficam em fotografar, deixam de ver a beleza sublime dos olhos de uma criança, ou o que há de mais encantador nas rugas de uma senhora bem idosa, ou então o toque divino e delicado das águas sobre as pedras. Na viagem da qual falo muitos devem ter deixado de ver a amizade da qual de repente todos foram tomados; deixaram de ver o cheiro convidativo e acolhedor de coisa antiga e bem cuidada; deixaram de ver, principalmente, o som divino e inspirador da voz do silêncio...

Ah! E é inevitável não ficar imaginando aquele homem ali, ora assentado na sala, a matutar grandes idéias para o aprimoramento do seu grande sertão. E depois pelo escritório, uma antiga máquina de escrever, uma variedade de livros que certamente não lhe formara mais do que as veredas da vida. Mais adiante um estreito quartinho e, nas palavras do pequeno que nos acompanhava, “uma cama maior do que a de solteiro e menor do que a de casal”, curioso isso. Em vista dos gastos devia ser melhor casar-se apenas uma vez e que, obviamente, fosse duradouro. E aquele pequeno?... Pequeno? Diferente dos daqui, precoces em tudo aquilo que não lhes engrandecerá em nada, tendo um grande vazio como conteúdo. Os pequenos de lá não são assim. Eles sabem quase o suficiente da vida; sem muita ingenuidade, não perdem a inocência... E nem a infância. Parecem mesmo Miguilim.

E a cozinha?! Os gênios alimentam-se então. O motivo é que eu desconheço, sendo eles imortais. Deve ser modéstia, aposto. Só para não diminuir os demais. Sem comentários sobre as gavetas na mesa onde eram feitas as refeições. Mas há algo de curioso acerca não só dessa mesa, mas de todos os objetos existentes na casa. Havia em mim uma espécie de sentimento de grandeza por ter a oportunidade de tocar, sem grandes restrições, nos objetos que um dia pertenceram ao grande Guimarães. Eram como relíquias e eu jamais teria a petulância de querer pra mim, pois elas perderiam a sua essência, deixariam de ser relíquias, não existiriam fora dali, assim como o amor não existe fora dos corações e as imperfeições não existem fora das almas humanas.

Mas, em um dado momento, aconteceu o que acontece em todas as viagens que fazemos. Falo de algo realmente aterrador, angustioso e inevitável. Falo do momento em que se aproxima a hora da partida. Acontece. Sempre acontece. Aconteceu em todas as viagens que fiz. Aconteceu, por exemplo, em uma das minhas maiores aventuras na Terra do Nunca; aconteceu quando eu repousava tranqüilo sob a mais magnífica árvore do Jardim do Éden; aconteceu também quando eu fui envolvido pelo abraço daquela pessoa... Acontece, geralmente ao som do despertador ou da voz de uma mãe; à rispidez da voz que se ouve no metrô ou às chamadas à atenção de uma professora. E foi horrível quando nos despedimos daquela magnificente pequena casa. Assentamo-nos em uns banquinhos, de frente à ela, cientes da derradeira despedida que se daria em instantes. Permanecemos ali, assentados, um pouco cansados, um pouco sedentos, um pouco saudosos de algo ainda não vivido. Viajando. Ali, recordo-me de ter acarinhado os pêlos de um cachorro, que não parecia ter um mínimo de entusiasmo com isso e muito menos com os que tentaram leva-lo à uma crise de identidade chamando-o de Pingo D’Ouro.

Então, como não podia ser diferente, fizemos um breve passeio pela cidade. Entramos em uma venda, inclusive, cheia de pequenas e belas criações de uma delicada magia das mãos do homem. E todos queriam levar alguma coisa dali, mesmo que fosse algo abundante nas pequenas lojinhas de “um e noventa e nove”; mas havia uma sutil diferença: aqueles objetos estavam ali, no lugar onde, naquele momento, vivia-se um dos raros momentos especiais da vida, e a gente sempre quer ter lembranças de coisas especiais. É como se quiséssemos levar conosco toda aquela cidade e, devido a impossibilidade de concretizar absurdo desejo, nos contentávamos com um pequeno minúsculo fragmento dela que, futuramente, nos remeteria à toda uma sensação de felicidade. Mais uma estratégia para a sobrevivência humana, falha e geralmente inútil, afinal, objetos não trazem de volta vivências ou lugares, pelúcias e bilhetes não nos restituem beijos e amores e retratos não nos devolvem pessoas.

E foi pensando nisso que me recostei no cômodo assento, passivo a tudo que o destino me reservasse, pronto para novas e longas viagens. E, sem que eu me desse conta, os meus lábios curvaram-se em um sorriso por todos aqueles pensamentos que ora me entristeciam ora me proporcionavam uma nova e inovadora maturidade. De repente FLASH! E o meu sorriso fora guardado.


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Alex

 
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