sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Sexolinguística

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010



É isso mesmo. Sexolinguística. Termo que, com este significado, acabo de inventar: ramo da Linguística que estuda a relação sexo/linguagem. Pronto, já estou vendo gente interessada no assunto; todas as universidades implantarão cursos de licenciatura em Letras de tão grande que será a procura. Em qual período teremos esta disciplina? Qual a carga horária? Quantos créditos? Calma, calma. Tudo se trata apenas de uma brincadeira, é claro; no entanto, brincadeira até certo ponto. Foi para mim motivo de muita gargalhada quando, passando por uma banca de jornais, avistei a edição especial da Revista Língua Portuguesa, editada em junho de 2006. Essa trazia na capa a imagem relativamente erótica do corpo parcialmente nu de uma mulher, junto da chamada de capa “Sexo & linguagem: o prazer na palavra”. Quando dei por mim, havia comprado a revista. A gargalhada, que ainda não justifiquei, deu-se por, nesta ocasião, eu ver concretizar-se uma brincadeira (de mau gosto para alguns) que eu fazia desde o 1º período do curso de graduação em Letras. Eu, apaixonado pelos estudos literários como sou, sentia-me desconfortável nos períodos durante os quais predominavam os estudos linguísticos. Sendo assim, após ter me alternado entre disciplinas como Sociolinguística, Psicolinguística e outras, sem falar na Semântica e Pragmática, dizia: “Agora só falta vir a Sexolinguística”. E veio.

Aquela edição da Língua, porém, estava longe de ser uma brincadeira, apesar do tom bem-humorado que foi dado às matérias. A primeira relação verificada entre o sexo e a linguagem referia-se ao fato de que ambos enfatizam a relação com o outro (embora ambos possam, também, ser praticados solitariamente, o que não vem ao caso). Além do mais, o discurso cotidiano constaria, segundo a revista, de ideias subjacentes acerca da sexualidade. Essas, em sua maioria, referem-se à ideia ainda vigente, por incrível que pareça, da condição de superioridade do homem em relação à mulher. Um exemplo óbvio disso são palavras masculinas, significando sempre uma determinada qualidade do homem e que, quando colocadas no feminino, revelariam um significado pejorativo em relação à mulher. A saber: “pistolão”, enquanto homem poderoso e “pistoleira”, enquanto prostituta; cabe ao próprio leitor, então, analisar a forma masculina e feminina de expressões como “homem público”, “homem da rua”, “peitudo” etc. Nesse âmbito, a língua expressa então preconceitos ainda vigentes, às vezes desapercebidos, em relação à mulher.

Outra relação, apresentada pela Língua, revela, ao meu ver, que talvez falemos sobre sexo muito mais do que pensamos. Refiro-me a certas palavrinhas, cuja origem libidinosa é desconhecida pela grande maioria dos falantes. Quem diria, por exemplo, que palavras como orquídea, bastardo, testemunho (!!!) e outras ter-se-iam originado de situações tão obscenas... Mas a coisa não para por aí, o que é óbvio, já que estamos falando de linguagem e sexo, ambos fenômenos consensualmente complexos (o segundo costuma ser mais discutido). Como o assunto é muito amplo, vamos recortar um pouquinho e falar sobre o Brasil. Pode não parecer novidade, mas no que concerne à sacanagem o nosso país tem um vocabulário extenso. Zonas erógenas do corpo são denominadas, por aqui, por uma variedade surpreendente de termos. Segundo a Revista Língua, existem aproximadamente 299 sinônimos para designar a genitália feminina, perdendo apenas para os 369 sinônimos referentes ao genital masculino e daí por diante. Até aqui tudo bem. É triste saber, no entanto, que nosso país consta de mais termos pejorativos como referência ao indivíduo homossexual do que em qualquer outro país. Apesar dos avanços, ainda um forte e evidente preconceito.

Parece mesmo que o sexo faz a linguagem, mas não é bem assim. Nosso vocabulário tem ainda muitas outras origens, o que não discutiremos aqui. É errôneo, porém, ignorar a participação efetiva da sexualidade na construção do nosso discurso, na formação da nossa linguagem etc. Bom, para finalizar, permito-me apenas profetizar algo: se acaso, posteriormente, a Sexolinguística passar definitivamente a fazer parte das investigações sobre a linguagem, estando então ao lado da Psicolinguística, da Fonética e dos outros ramos da Linguística, certamente os estudos terão origem no Brasil. Afinal de contas, brasileiro só pensa em linguagem...

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LÍNGUA PORTUGUESA ESPECIAL. Sexo & Linguagem. Ano I, junho de 2006, 68 p.


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