sábado, 10 de julho de 2010

"Educação não é mercadoria"

sábado, 10 de julho de 2010



Há muito eu vinha planejando postar neste meu diário virtual o meu texto “A educação pelo viés capitalista: mero produto mercadológico ou direito do cidadão?”, premiado no I Concurso de Redação do Sindicato dos Auxiliares de Administração Escolar de Minas Gerais (SAAEMG). Inflar o meu ego está, obviamente, entre os meus objetivos ao publicar aqui o meu texto. Não é esse, porém, o meu objetivo primeiro. A grande verdade é que não tive ainda a oportunidade de fazer, mais formalmente, os meus agradecimentos as tantas pessoas que contribuíram e/ou que comemoraram comigo esta conquista.


Parece-me válido fazer os meus agradecimentos seguindo a ordem dos acontecimentos, começando, portanto, pela minha querida amiga Rosimária Ruela, colega de trabalho e a mais nova mamãe, por me haver contado sobre o concurso, incentivando-me a produzir o meu texto e enviar. Agradeço a minha querida amiga Débora Silva e ao meu caro (e charmosíssimo) ex-professor Clézio Roberto, por haverem lido, opinado e revisado o meu texto. Agradeço às pessoas do Núcleo de Apoio à Inclusão do Aluno com NEE da PUC Minas (NAI) – representados aqui pelo nome da Prof.ª Maria do Carmo Menicucci –, pelo tamanho afeto que me foi dado no dia da entrega do prêmio. Agradeço, de coração, aos membros do SAAEMG – aqui representados pelo nome de seu presidente Carlúcio Kleber Borges –, tanto pelo prêmio quanto pela presença no dia da entrega. Ao meu pai, por haver ido até o meu trabalho e levado o meu prêmio para casa (risos). Ao Paulo Cruz, designer e ilustrador, que produziu a caricatura abaixo, publicada no Informativo No Ponto junto à notícia da premiação. A todos os membros da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (CONTEE), pelo carinho e cordialidade com a qual nos receberam no XIV CONSIND da CONTEE. Agradeço ao Sérgio Messias Guimarães e à Andréia Pereira – 1º e 2º lugares do concurso – por me haverem dado a oportunidade de conhece-los, partilhando comigo as idéias acerca do cenário educacional brasileiro.


Enfim, é muita gente boa. Impressiona-me como alguns, ao serem ovacionados, inflam-se de auto-estima e esquecem-se de imediato das tantas pessoas que têm parte significativa em sua conquista. Que muitas vitórias venham ainda, e que, com a mão Dele sobre mim, eu siga valendo-me da palavra para brigar pelo respeito, pela inclusão, pela igualdade e pela vida de todo e qualquer ser humano. Um grande beijo.



A educação pelo viés capitalista: mero produto mercadológico ou direito do cidadão?


A educação - ao lado da saúde, do emprego, da habitação e do meio ambiente – figura no campo das necessidades básicas do ser humano. Verifica-se, porém, que, desde a nossa colonização, a educação apresenta-se deficiente, uma vez que marcada pela seletividade ao estabelecer modelos educacionais específicos para cada classe social, a saber: um modelo “acadêmico”, voltado para a burguesia, e outro mais primário, destinado às classes menos privilegiadas, sendo isso nada mais que uma cópia dos modelos educacionais europeus de então. Em uma sociedade acentuadamente hierarquizada, esforçava-se para manter como nula qualquer possibilidade de mobilidade social, oferecendo-se um sistema de ensino privado, isto é, dispendioso, o que já pressupunha o seu caráter seletivo e exclusivo, e ministrando, nesse modelo educacional burguês, conteúdos desprovidos de finalidades práticas para o dia-a-dia, o que levava à desistência o indivíduo pobre que por ventura ingressasse em uma escola inerente ao referido modelo.


A manutenção desse modelo educacional em detrimento às classes menos favorecidas, teve sucesso até a década de 20, quando começa a se proliferar no Brasil a chamada classe média. O surgimento dessa nova classe provoca o enfraquecimento do então modelo educacional voltado para atender apenas duas parcelas da população – a elite e o povo. A educação, então, vai se “deselitizando” e distanciando-se dos traços europeus, uma vez que era por via dela, a educação, que a classe média buscava ascensão social. Isso, todavia, não alterou em grande parte o cenário que se apresentava à classe desfavorecida de fato, uma vez que as políticas educacionais nesse âmbito não mudaram e o modelo educacional voltado aos indivíduos de baixa renda não era via de acesso a outros níveis de ensino.


A meu ver, esse quadro pouco ou nada mudou na atualidade, o que se confirma na explanação feita pela filósofa Marilena Chauí, em aula de inauguração da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, em palestra intitulada “Educação: direito do cidadão e não mercadoria” (20 de fevereiro de 2003). Chauí denuncia a resignação do povo brasileiro diante da existência de um ensino privado dito de qualidade e um ensino público dito ruim. Com base em Chauí, é possível afirmar que nossos atuais modelos educacionais permanecem trabalhando na manutenção da desigualdade e da exclusão, haja vista que, tal como ocorrido antes da década de 20, um modelo educacional dito de qualidade continua a ser restrito à classe média alta e superiores. Em outras palavras, a educação de qualidade é privatizada, ao passo que o ensino público, nos níveis fundamental e médio, é precário e de baixa qualidade, o que leva Marilena Chauí à conclusão de que a educação reduziu-se à mera mercadoria, quando devia ser efetivamente direito do cidadão.


No que concerne ao Ensino Superior, não me parece exagerado dizer que cursar uma faculdade passou a fazer parte da tão enaltecida moda, sendo, assim, equivalente à preocupação com a beleza e a estética. Em minha opinião, aliás, os cursos pré-vestibulares – que abrem e fecham todo dia – deviam promover, um pouco, a reflexão acerca do que o mundo espera de jovens universitários. Aposto todas as fichas em que, desta forma, dar-se-ia uma boa “peneirada” antes da data dos exames, diminuindo-se, assim, a má qualidade nas salas de aula do Ensino Superior. Até então, porém, tudo o que se tem é a fraca ressonância de uma militância universitária de outrora.


Um ex-professor da faculdade, a quem eu tenho como o eterno mestre Pedro Perini-Santos, bem soube denunciar a concepção de educação como mercadoria, quando escrevia para o Caderno de Cultura do Jornal Hoje em Dia. Munido da característica ironia desses escritos, Perini-Santos (Hoje em Dia, 06 de março de 2000) questionava a absurda banalização a qual foi submetido o conceito de educação, sendo que professores e alunos deixaram de sê-lo, para tornarem-se “funcionários e clientes”. Nesse âmbito, ainda segundo o autor, a educação – outrora sinônimo de humanização, de formação de sujeitos aptos a atuar sobre o mundo em que vivem – regride à mera condição de produto, cuja qualidade é avaliada pelo grau de “facilidades” que o professor oferece ao aluno, durante o processo que devia ser de aprendizagem.


Note-se o pertinente emprego da palavra “relação”, a qual, lamentavelmente, informa que não parte apenas do aluno a concepção equivocada de educação, mas também dos próprios diretores, educadores, enfim!, do grupo que tem o poder de reverter essa situação. E não me parece nada edificante que a própria educação, esperança da humanidade, perdendo apenas para a família, reproduza em si as relações de um mundo capitalista que ela tanto deve denunciar. Ora, eu sei o quanto essas relações são complicadas, sei que as instituições de ensino privadas precisam manter-se, sei o quão arraigadas estão na mente dos brasileiros concepções equivocadas de educação... Enfim. Isso, porém, não anula a minha consciência de que, no que toca a educação, as coisas estão, grosso modo, um tanto esquisitas! Poesia parece-me sempre uma boa pedida nessas horas, tanto que, nas minhas considerações finais, recorro aos versos do outrora polêmico poeta Neimar de Barros, que, “no vento livre do seu arbítrio”, questionava veementemente o leitor: “Quantos anos você tem? / Você tem idade para tomar vergonha / Ou a vergonha se consumiu na sua sociedade de consumo?”.


É, Neimar... Parece-me que a vergonha já se deixou absorver pela tal sociedade de consumo, sim. E junto dela se foram o caráter, a dignidade e, até, a educação... Mas há esperança, e, assim como eu, há quem não duvide disso.




Disponível em: I Concurso de redação do SAAEMG.



1 comentários:

Sheila Morato

Oi, Alex. De fato, é muito triste verificar que a educação transformou-se em mercadoria, em qualquer nível de perspectiva que se analise... Eu, como mãe, professora e cidadã fico realmente muito preocupada com as gerações que estão chegando e com o que podemos fazer pra reverter essa situação. Parabéns pelo texto e pela premiação! Um abraço.

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