quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Sobre transexualidade, travestismo, mídia e polêmica

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
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Ariadna Thalia Arantes.

Imagem retirada de Tudo sobre BBB.


Não fazia meia hora que terminara a primeira eliminação do Big Brother Brasil 11 e os fóruns de discussão já estavam repletos de postagens que ou lamentavam ou comemoravam a saída de Ariadna, a primeira transexual a participar da versão brasileira do reality show. A carioca, escolhida pelo voto de Cristiano, primeiro líder do jogo, saiu da casa com 49% dos votos. Ruim para ela, ruim para a Globo, ruim para a torcida de Ariadna e, talvez, para a comunidade LGBT, que (sem generalização, claro) tinha a permanência de Ariadna como propícia a reflexões sobre a questão da transexualidade. Não se trata de uma certeza, obviamente, mas acredito, sim, que a “convivência” dos telespectadores com tipos geralmente discriminados seja benéfica, uma vez que vê-los durante 24 horas, em seu estado natural, pode invalidar alguns mitos e estereótipos.


Desconheço se era positivo ou negativo o comportamento de Ariadna dentro da casa. Nas poucas “espiadinhas” que dei, interessado na presença dela, não percebi comportamento diferenciado em relação aos demais participantes. Ao menos nada realmente gritante, afinal, os telespectadores do BBB devem estar acostumados a obscenidades, sem falar naqueles que assistem o programa justamente à procura disso. Tudo isso, portanto, dá-nos alguma base para ponderar que, ao ser eliminada do reality show, Ariadna pode haver sido vítima da intolerância que reina em terras tupiniquins. Formado o paredão – através da escolha de Rodrigo, que, ao atender o Big Fone, escolheu Lucival; através dos seis votos que os demais participantes deram para Janaina e através da indicação do líder Cristiano, que escolheu Ariadna – Janaina fez uma observação válida: "Só os rejeitados pela sociedade". Dizendo isso, a moça contemplava apenas o fator racial e social, mas muitos de nós, aqui do lado de fora, consideramos também a presença de um homossexual e de uma transexual naquele trio de “rejeitados”. É mais que possível, sim, que a saída de Ariadna seja consequência de preconceito, afinal, num país onde os telespectadores se mostram apavorados diante da possibilidade de assistirem a um beijo gay em horário nobre, não surpreende que não queiram se deparar, diariamente, com um “ex-homem” trocando carinhos com os colegas de confinamento. Imaginem então permitir que esse participante seja o ganhador do prêmio de 1,5 milhão de reais...


Nádia Almada.
Imagem retirada de Virgin Media.

Caso diferente ocorreu na versão inglesa do programa, no Reino Unido, que, em sua quinta edição, teve como ganhadora do prêmio a transexual portuguesa Nádia Almada, que, aos poucos, foi conquistando a simpatia dos telespectadores. Tal como Ariadna parecia pretender fazer, Nádia nada contou sobre sua condição aos demais participantes do reality show, de modo que a mesma fosse sabida apenas pelos telespectadores. Não sei o que aconteceu por aquelas bandas, mas sei que por aqui muito se especulou sobre se Ariadna devia ou não contar que, em um passado distante, fôra Thiago. É, de fato, um assunto complexo. Embora por um lado contar pudesse ser interessante e até mesmo o mais honesto – dado que, enquanto para muitos rapazes da casa provavelmente não fizesse diferença, outros, sabendo, poderiam preferir evitar certos contatos físicos –, por outro lado, sabe-se que o transexual é aquele que, independente de cirurgia de redesignação sexual, desde sempre sabe-se do sexo oposto àquele com o qual nasceu. Logo, não entrar na casa espalhando isso aos quatro cantos pode haver sido uma decisão natural da cabeleireira Ariadna.


Há quem diga, porém, que o silêncio sobre o assunto, mais que uma decisão de Ariadna, foi uma imposição da Globo. Alguns consideram que a moça haja assinado um contrato com a emissora comprometendo-se a não contar sobre sua transexualidade. Bom, não creio que a emissora chegue a tanto, mas tenho como certo que a sua preferência fosse que a carioca permanecesse no programa chegando a se envolver com algum/alguns dos rapazes. Objetivo: gerar polêmica, deixar os outros em maus lençóis, ganhar audiência. Duvido que haja quem não saiba que os participantes desse tipo de programa são escolhidos a dedo, de modo a termos em todas as suas edições o belo rapaz, a linda moça, o gay, o ex-ator pornô, o sem sal etc. Nada melhor que a diversidade confinada para gerar uma boa polêmica. Programas como BBB nada ensinam, em nada contribuem para o desenvolvimento cultural dos telespectadores, apelando sempre para a vulgaridade. Se programas como esse, no entanto, são tudo o que temos como líderes de audiência, a saída de Ariadna pode, sim, ser uma perda lamentável. Como bem disse Adriana Galvão, presidente do Comitê da Diversidade Sexual e Combate à Homofobia da Ordem dos Advogados de São Paulo, a permanência de Ariadna no programa, tal como as situações provocadas pelo seu silencio em relação a sua transexualidade, podiam revelar como as pessoas lidam com a diversidade sexual. "Isso pode mostrar até que ponto as pessoas são homofóbicas ou não", disse a advogada.


De uma forma ou de outra, talvez a breve estadia de Ariadna tenha nos dado já uma boa base para saber da profunda ignorância das pessoas sobre o tema da transexualidade e deduzir “até que ponto as pessoas são homofóbicas”. Enquanto alguns brothers da casa juram não ter percebido nenhuma saliência na peça inferior do biquíni da moça e outros acreditam que a mesma se chame Ariel na “vida real”, devido a uma metáfora utilizada por Pedro Bial durante o discurso de eliminação, João Gabriel, o ex-marido da transexual, é alvo de preconceito na rede social Orkut, em uma comunidade oficial de uma torcida organizada do Vasco, da qual faz parte. A revolta dos torcedores se deve ao fato de João Gabriel haver assumido para a imprensa haver vivido um relacionamento com a ex-BBB, o que, na visão deles, mancha a imagem do time. Bom, isso reproduz bem o que é o preconceito: ou você se adéqua à maioria para fazer parte do grupo ou você está fora do grupo.



Andréia Albertine.
Imagem retirada de Val Cabral.


Aliás, essa coisa de futebol e transexualidade me faz lembrar nada menos que o caso Ronaldinho, hoje esquecido, para a sorte dele, mas nunca realmente esclarecido de modo a não deixar dúvidas, o que agora pouco importa, já que a grande maioria nem se lembra mais do assunto e dado que o próprio travesti Andréia Albertine – morto na madrugada do dia 9 de julho de 2009, vítima de uma meningite que complicou-se com uma pneumonia – retirou todas as acusações que fizera contra Ronaldo uma semana após a confusão. Obviamente, isso pouco ou nada tem a ver com Ariadna, que, vale ressaltar, é transexual e não travesti. Não obstante, esse e tantos outros casos servem para discutir o imenso atraso cultural e intolerância de muitos dos brasileiros. Recordo-me de, quando do ocorrido, haver participado de conversas sobre o tema, fosse em fóruns virtuais ou rodas de amigos, e haver me deparado com torcedores angustiados. E a angústia, bem me lembro, se dava não pela possibilidade de o jogador ser um desonesto e haver se negado a pagar o que havia combinado com Andréia, mas pelo fato de o seu jogador, outrora chamado fenômeno, haver mantido relações com um travesti, como se isso anulasse os seus méritos como grande futebolista.


Assuntos como homossexualidade, transexualidade, travestismo e correlatos precisam ser abordados de maneira realmente séria e não estereotipada pela mídia. O portal Hora de Santa Catarina, aproveitando o caso Ariadna, chegou até mesmo a disponibilizar em sua página uma breve explicação sobre essas e outras terminologias. Entender as coisas é um bom passo para não termos preconceito. Até então, porém, travestis e transexuais – salvo raras exceções como Fernanda Carraro e Letícia Venturini, que deram um show de interpretação, dublagem, beleza e criatividade no programa Gente que brilha, exibido pelo SBT entre outubro de 2004 e abril de 2005 – só tiveram destaque na mídia devido a polêmicas.



Miguel Falabella.

Imagem retirada de Canal da Notícia.


Foi Miguel Falabella quem, criativo e revolucionário como sempre (ou quase sempre), promoveu uma discussão interessante na aparentemente extinta série A Vida Alheia, referindo-me aqui ao episódio “O direito de cada um”, que foi ao ar em 13 de maio de 2010. Nesse episódio, o jogador de futebol Balu (Dudu Pelizzari) é visto entrando em um motel com o travesti Doris (Bruno Kimura), tornando-se, assim, alvo da revista de celebridades “A Vida Alheia”, que estampa em sua capa a sensacionalista chamada “Balu flagrado no motel com travesti”. O interessante nesse episódio – ou o “surpreendente”, como bem disse Falabella em entrevista à Folha – é o fato de o fictício jogador Balu, em entrevista a um estranho programa (aparente programa de fofocas comumente exibido à tarde), dizer que é maior de idade, faz bem o seu trabalho como jogador e está no direito de escolher quem bem lhe interesse para levar ao motel. Nesse episódio, o travesti Doris termina ganhando fama, sendo novamente capa da “A Vida Alheia”, dessa vez de forma positiva. Assim, a revista acabou sendo digna dos cumprimentos do jogador.


Quando perguntado se o episódio era uma referência clara ao “Ronaldo Fenômeno”, Falabella responde que “Não é o Ronaldinho, é apenas uma inspiração como várias inspirações que a gente pega e mistura. Mesmo porque os nossos escândalos não chegam nem perto dos ingleses e dos americanos. Isso de originalidade é uma bobagem. Todas as histórias já foram contadas. O negócio é como contá-las e o frescor de diálogo, por isso que a gente aposta no diálogo que traga um ruído novo da TV aberta. Pelo menos é a proposta”.


Bianca Soares e Alexandre Frota.
Imagem retirada de Quem Acontece.

Programas mais sofisticados como A Vida Alheia, porém, continuam perdendo para programas como BBB ou versões mal sucedidas como Casa dos Artistas, reality show exibido pelo SBT entre 2001 e 2002. Em sua quarta e última edição, intitulada “Casa dos Artistas 4: Protagonistas de Novela” e que não tinha muito a ver com as edições anteriores, o programa teve como participante a travesti Bianca Soares, o que, penso, não gerou grande polêmica devido à baixa audiência do programa. Bianca, porém, foi a segunda eliminada do programa, por razões que não conheço bem, mas penso ser pelo seu desempenho ruim nos testes. É uma pena, pois a proposta do programa era lançar um novo talento que protagonizaria uma telenovela do SBT, e seria inovador ver uma travesti protagonizando uma novela. Por outro lado não há muito problema, já que nem a “grande ganhadora” Carol Hubner chegou a protagonizar a novela que lhe fora prometida...


Bom – tomando emprestada a expressão usada por Ariadna, que disse ontem em entrevista no Projac que deseja que “as portas se abram” para ela – parece que poucas portas se abriram para Bianca Soares além das portas da Brasileirinhas, produtora brasileira de filmes pornográficos, que se escancararam para ela. A moça, além de protagonizar alguns filmes da produtora, chegou a fazer cenas de gosto duvidoso com o brutamontes Alexandre Frota.


Acabamos por falar de pessoas bem diferentes entre si, mas que, infelizmente, na minha opinião, têm algo em comum: tanto Ariadna como Nádia e Bianca chegaram a se prostituir antes da "fama". Foi essa, aliás, uma das revelações “bombásticas” feitas por Ariadna durante a sua estadia na “casa mais vigiada do Brasil”, o que, talvez, pode haver sido desfavorável a sua permanência no programa. É difícil tocar em temas como a prostituição, até porque estamos em uma sociedade dividida entre aqueles que a condenam e aqueles que a defendem com o argumento de ser ela uma profissão como qualquer outra, e uma profissão digna. Será? Bom... complexo, e isso envolve inúmeras questões, inclusive questões morais, as quais não mencionarei aqui para não parecer um moralista chato, até porque não é esse o tema desta postagem. Enfim, desconheço as razões que levaram as pessoas mencionadas a recorrerem à prostituição, pois são casos específicos. Mas é certo – e lamentável – que, em sua maioria, os transgêneros recorram a esse tipo de trabalho não por prazer, mas pela falta de oportunidades. No contexto brasileiro temos visto alguns tímidos avanços nesse sentido, mas a falta de entendimento sobre a condição dos transgêneros ainda os condena ao comércio do corpo.


Roberta Gambine Moreira, a Roberta Close.
Imagem retirada de Veja.


Obviamente, um artigo sobre transexualismo, mídia e polêmica não poderia deixar de mencionar a musa Roberta Close, pessoa a quem eu tenho cá críticas a fazer, mas que é, a meu ver, digna de grande admiração pela luta de décadas pelo seu reconhecimento legal como mulher. Ao lado dela, temos tantos outros “transexuais e transgêneros que de algum modo trouxeram benefícios para a sociedade [LGBT}, seja lutando em favor das minorias, seja como pessoas públicas que se destacam artística, cultural, científica ou politicamente”, conforme o disposto no site Wikipédia, que apresenta uma lista bem completa de transexuais e transgêneros publicamente conhecidos.


Resta-nos agora torcer pelo futuro de Ariadna – que, esperamos, montará seu centro de estética a despeito de não haver recebido o premio – e por tantas outras pessoas que, como ela, têm um histórico de luta, exclusão e intolerância. E, claro, torçamos por mídias melhores, que contribuam de fato para que futuras Ariadnas, Biancas, Nádias, Robertas e tantas outras tenham uma vida mais digna e com mais e melhores oportunidades nessa sociedade brasileira que, amedrontada e preconceituosa, insiste em permanecer na ignorância sobre temas que, como esse, vivem a lhe bater à porta.




Referências:


Anônimo. Anexo: Lista de transexuais e transgêneros publicamente conhecidos. In: Wikipédia. S.d.


ANÔNIMO. Curiosidades sobre Big Brother. In: O guia dos curiosos. S.d.


ANÔNIMO. E Deus criou a mulher. Ou quase. In: JC OnLine. Recife, 19 jun. 1998.


ANÔNIMO. Morre travesti que se envolveu em polêmica com Ronaldo. In: FOLHA.com. 09 jul. 2009, 23h46.


ANÔNIMO. No embalo da Ariadna, entenda o que é um transexual. In: Hora de Santa Catarina. 19 jan. 2011, 13h11.


BRANDÃO, Lívia. Papo sobre Ariadna, saída do armário e pegação no 'BBB 11'. In: BigBlog. 19 jan. 2011, 12h30.


CIMINO, James. "A realidade é bem mais dura", diz Miguel Falabella sobre "A Vida Alheia". In: FOLHA.com. 18 jul. 2010, 07h44.


MAIA, Maria Carolina. Eliminação de Ariadna coloca o BBB11 no paredão. In: Veja. 19 jan. 2011, 17h32.


MIRZEIAN, Clarissa. Primeiro Paredão do BBB 11 contempla a diversidade. In: E-Band. 17 jan. 2011, 13h55.


REDAÇÃO. “BBB 11": "Só os rejeitados pela sociedade", diz Jana sobre Paredão. In: JC Online. 18 jan. 2011.


S.C.C. com agências. Nádia Almada enfrenta grave depressão. In: Correio da Manhã. 05 set. 2005.


SANTOS, Eliane. Ex-marido de Ariadna, do 'BBB 11', sofre retaliação de torcida de futebol no Orkut. In: ego. 12 jan. 2011, 21h26.


SOUZA, Richard; AMARAL, Luiz Cláudio; COSTA, Fabrício. Ronaldo: confusão com travesti no Rio. In: globoesporte.com. 29 abr. 2008, 08h46.


VALLADARES, Ricardo. Estranho no ninho. In: veja on-line. Edição 1868. 25 ago. de 2004.


ZYLBERKAN, Mariana. Globo na mira de polêmica. In: Diário de S. Paulo. 13 jan. 2011, 18h02.


2 comentários:

Pedro Perini-Santos

Muito bom texto.

Anônimo

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