segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Homenagem ao Léo Martins

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

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Querido(a) visitante, hoje posto aqui uma mensagem referente a algo específico da minha vida, o que pode deixar você, que não me conhece pessoalmente, a ver navios. Portanto, permita-me contextualizá-lo: trata-se de uma homenagem escrita ao meu amigo Leonardo Martins, que durante um ano foi meu companheiro de luta no Núcleo de Apoio à Inclusão do Aluno com NEE da PUC Minas. Agora, surgiu diante de Léo uma bela oportunidade de crescimento profissional, e ele, claro, vai abraçar tal oportunidade. Léo tem uma paralisia cerebral. É jornalista formado pela PUC Minas.


Imagem retirada do Orkut de Leonardo Martins.


É preciso três coisas para atravessar:

o barco (que é você),

o sonho (que é a carga),

o caminho (que é o aonde ir)


Se você tiver um caminho

encontrará todos os seus caminhos.


LUCINDA, Elisa. “A revelação”. In: Euteamo e suas estreias. Rio de Janeiro: Record, 2007, p. 183.



Durante a minha especialização eu tive a bela oportunidade de ser aluno do sempre bem-humorado arquiteto Mário Hermes Stanziona Viggiano. Não duvido que esse, com todo o seu alto astral, humor, desenvoltura e fino sarcasmo fosse digno de um texto em sua homenagem. Claro que é. O meu objetivo aqui, todavia, não é homenagear o Prof. Viggiano, mas, sim, o nosso amigo Leonardo Martins, jornalista, cruzeirense, blogueiro e super gente fina que o NAI teve o prazer de ter, por aproximadamente um ano, em seu quadro de funcionários. Bom, mas onde o mencionado professor entra nessa história? Ocorre que, na ocasião de uma conversa, Léo e eu damo-nos conta de havermos sido alunos de um professor em comum, isto é, do Prof. Mário Viggiano. Léo havia sido aluno dele durante o seu curso de graduação e eu acabara de ter uma disciplina ministrada pelo mesmo em meu curso de especialização. Na ocasião, eu disse que comentaria com o professor sobre a minha relação com Léo, ao que o meu nada presunçoso amigo disse: “Garanto a você que ele só terá coisas boas a dizer sobre mim”. Foi “dito e certo”, como diz mamãe.


Ao comentar com o Prof. Viggiano sobre a minha amizade e relação profissional com o Léo, esse, imediatamente, disse lembrar-se, sim, do rapaz, dizendo-me haver sido ele um grande aluno e relatando-me uma situação em que Léo surpreendeu a todos com uma notícia relacionada ao esporte (não me recordo das minúcias) que não era, ainda, do conhecimento do grande público. E, de forma emocionada, Viggiano contou-me sobre a cerimônia de formatura do Léo, ocasião na qual ele foi um dos professores homenageados, tendo a oportunidade de ver o Léo ali, vencendo uma etapa, servindo de exemplo de superação para todos, recompondo-se rapidamente de uma queda e indo apanhar o seu canudo com aquele sorrisão novamente estampado no rosto.


Sim... Exemplo de superação...


Conviver com o Léo foi mais uma das oportunidades de amadurecimento que o NAI me proporcionou. Eu, a despeito de ter também uma deficiência e não raro ser vítima da resistência de alguns, temia aproximar-me do Léo. Como abordá-lo? Podia estender-lhe a mão para um cumprimento? Abraçá-lo requeria algum movimento específico? Enfim, bobagens infindáveis e constrangedoras ocasionadas por uma profunda ignorância acerca da paralisia cerebral e da deficiência de modo geral. E foi graças às solicitações da Prof.ª Nivânia, que urgiam uma parceria entre Léo e eu a despeito de atuarmos em turnos distintos, que fui “aprendendo” o Leonardo Martins, cuja convivência não exigia nenhuma regra. Ou, talvez, exigisse uma: agir naturalmente e com respeito, tal como se deve agir com qualquer adulto, qualquer profissional, qualquer colega de trabalho.


E inclusão talvez seja mais ou menos isso, minha gente. A gente entra no embalo e vai aprendendo na convivência, derrubando os mitos sobre o outro, criando parcerias e adquirindo aprendizado para a vida toda. Foi assim que fui descobrindo que Léo, muito além da sua locomoção e fala peculiares, era jornalista, fera na informática, apreciador de esportes e moderador de dois blogs, o Esporte é Vida e o (D)eficiência, esse último criado mais recentemente. Comum, diferente, extrovertido, mal humorado, companheiro, indiferente, legal, aborrecido. Enfim, se queremos atribuir ao Léo a qualidade de “especial”, que seja pelo maravilhoso fato de ele ser igual a todo mundo tendo as suas especificidades.


Eu, particularmente, abomino aquele discursinho clichê sobre o “deficiente que precisa se superar”, e desejo, sinceramente, que a presente homenagem passe longe disso. Trata-se de um discurso ainda em voga, embora equivocado, que passa a ideia da deficiência como algo negativo que careça de compensações. Ora! A deficiência não carece de compensações, e enfrentar os obstáculos é desafio de todos, com ou sem deficiência. Todos nós, uma vez lançados nesse mundo, temos por obrigação a luta pela felicidade de todos os viventes, e isso inclui a nossa própria felicidade. Portanto, a urgência de constante superação não é privilégio apenas de quem tem deficiência, mas de todos nós. Enaltecer a pessoa com deficiência devido a sua participação ativa na luta pela emancipação própria é como que negar que essa participação seja um dever. Portanto, se Léo é agora homenageado, não o é por haver se instruído ou por ser um trabalhador “apesar da deficiência”, mas por ser um sujeito analítico, que reflete sobre as próprias limitações e potencialidades de modo a medir as possibilidades. Se Léo é especial, ele o é pela sua participação ativa na própria vida. Vida essa da qual a deficiência faz parte, sim, mas ao lado de inúmeros outros elementos que não são nem menores nem maiores que a deficiência.


De minha parte, posso dizer-me gratificado e quase crédulo na humanidade quando leio no Orkut do Léo os afáveis comentários que ele faz sobre o apoio dos seus pais; quando vejo o Léo dizendo-se uma espécie de “cadeirante que anda”, descendo escadas e caminhando da PUC até a estação do metrô, mas também solicitando uma mãozinha quando julga necessário. É assim mesmo, gente... A gente vai até o nosso limite e, a partir daí, a gente pede uma forcinha. Seres humanos estão aí é para isso mesmo. É uma relação de troca, e não há absolutamente nada errado nisso. Pelo contrário, é uma das maravilhas da criação divina e da inteligência humana... e a força, bem como a humildade, fazem parte da inteligência humana...


Portanto, o Léo é, sim, exemplo a ser seguido. Não por ser modelo de “deficiente”, mas pela relação que estabelece com as próprias angústias, limitações, vitórias, méritos, conquistas, amores e dissabores, pois é, durante todo o tempo, uma relação reflexiva e madura.


Ô, Léo, desejo-lhe sorte nessa nova etapa de sua vida. Mudar tem seu lado triste, mas também é bom demais, meu amigo, pois nos oferece a possibilidade de amadurecer ainda mais, de rever conceitos e conhecer mais a fundo o ser humano, em suas mazelas e virtudes, em suas quedas e atitudes, em suas indiferenças e solicitudes. Vai fundo. E olha... você se lembra de uma vez em que me disse que aquele meio-fio lá do quarteirão do Epa era o seu calcanhar-de-aquiles? Pois é... piores que aquele virão, viu? Mas, quando isso acontecer, o procedimento é simples: vá até o seu limite para continuar. Se de nada adiantar..., peça uma mãozinha.


Um abraço.

Alex Gabriel



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