sábado, 31 de dezembro de 2011

Das vantagens de ser bobo, de Clarice Lispector

sábado, 31 de dezembro de 2011

Eu não sei dizer ao certo se havia sido ideia minha ou de meus colegas de turma. Apenas me lembro de haver aceitado o desafio, a despeito da timidez que me é característica até os dias de hoje. E lá fomos nós. Minha turma de graduação, sempre tão carinhosa com os professores, visto o reconhecimento da participação definitiva deles em nossa vida, decidiu por homenageá-los, um a um, na semana dos professores. Assim, eu “declamaria” um poema em cada aula. O primeiro, se bem me lembro, foi o Prof. Pedro Perini (quem, inclusive, mereceu poemas, de minha autoria, publicados neste blog), que foi homenageado com um texto da Clarice Lispector – “Das vantagens de ser bobo” –, do qual eu tomara conhecimento recentemente, devido a uma interpretação feita pelo ator Paulo José, no ♪Fantástico♪ (risos). Assim, fiquei fascinado pela interpretação do ator. Mas mais fascinado mesmo fiquei pela essência do texto. E, graças à Clarice, descobri-me dizedor de poesia, e vez e outra estava eu lá, nos eventos do Curso de Letras, dizendo este e outros textos... Bons tempos aqueles... Bom, então, sem mais delongas, sejamos “bobos” nós também, aprendendo, desta forma, um novo jeito de olhar a vida.






Das vantagens de ser bobo

Clarice Lispector


O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar no mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, reponde: “Estou fazendo. Estou pensando”. Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia. O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo parece nunca ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.


Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.


Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: “Até tu, Brutus?”. Bobo não reclama. Em compensação como exclama! Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz. O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás, não se importam que saibam que eles sabem.


Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas! Bobo é Chagal, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas.


É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.



LISPECTOR, Clarice. "Das vantagens de ser bobo". In: A descoberta do mundo. Rio de Janeiro, RJ: Rocco, 1999, p. 310.


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