sábado, 8 de outubro de 2016

Arma de Vingança - Danilo Barbosa

sábado, 8 de outubro de 2016



“Fui extremamente fria. Como uma deusa da vingança, cruel e vingativa, passei por cima de todos que atravessaram meu caminho para conseguir castigar aqueles que me haviam feito sofrer. Cada doce carícia que dei a quem não merecia foi retribuída com sedutores toques manchados de sangue. Por isso, sem qualquer remorso, pense que estou ao seu lado, minha única testemunha, e direi, ao pé do seu ouvido: eu matei.” (p. 11)

Você gosta de estórias de mulheres vingativas? No que tange à Sétima Arte, da comédia ao terror, há uma série de estórias do tipo, sendo Carrie, a Estranha (Carrie, 1976), Thelma & Louise (Thelma & Louise, 1991), Valente (The Brave One, 2007) e Doce Vingança (I Spit on Your Grave, 2010) apenas alguns exemplos de tramas cinematográficas nas quais a mulherada não leva desaforo pra casa. A temática é tão envolvente e tão fértil terreno que não se restringiu ao cinema, fazendo a cabeça também de vários nomes da literatura universal.

Em alguns aspectos, Arma de Vingança, obra do independente Danilo Barbosa, poderia ser chamada de “A Vingança de Anastasia” ou coisa que o valha, pois aqui – tal como no (infelizmente) famigerado Cinquenta Tons de Cinza, de E L James – temos também a relação de uma jovem, curiosamente chamada Ana, com um magnata chegado às práticas do BDSM. A louvável diferença é que a personagem de Danilo não se curva aos abusos do ricaço em virtude de passeios de helicóptero, automóveis de presente e viagens na primeira classe. Ana reage contra os abusos, o que vem a lhe custar muito caro.

Danilo Barbosa se revela um mestre na construção do Arco Dramático. Ao longo de vinte páginas, o autor, não involuntariamente, conduz a narrativa ao crescente marasmo, sobrecarregando de romantismo a relação entre a moça recém saída de um namoro desastroso e o jovem cheio de galanteios. Danilo, porém, sabe bem a hora de parar, revelando ao leitor, na primeira metade da obra, a verdadeira face de Ricardo, que toma a palavra e se apresenta como um homem nada romântico, mas bem treinado na arte da sedução.

Aliás, é a partir daí que nos é permitido conhecer um recurso interessante utilizado por Danilo Barbosa: a narrativa em 1ª pessoa dividida entre os pontos de vista da protagonista e do antagonista. Assim, enquanto vemos Ana deslumbrada pelos mimos do seu novo amor, a narrativa nos transporta para o ponto de vista de Ricardo, nos dando a ciência de que Ana está entrando em uma verdadeira cilada. Nesse âmbito, o leitor, cativado pela sua personagem, não raro deseja entrar na estória e alertar a protagonista sobre as reais intenções de Ricardo. Sorte nossa não nos ser permitido fazê-lo... Um tal Tiago tentou e acabou se dando muito mal... (risos).

Outro ponto interessante em Arma de Vingança é o que chamamos tempo da narrativa. A personagem central nos é revelada no prólogo – que, aliás, tem início com uma afirmação que fisga o leitor logo de cara –, quando essa nos convida a acompanhar a sua história. “Aqui, diante de você, contarei em detalhes a minha história, finalmente”, é a afirmação da personagem, diante do que, naturalmente, o leitor espera que, a partir dali, o passado assuma o tempo narrativo. Todavia, o que temos a partir de então é uma história narrada a partir do fluxo de consciência dos personagens, no presente, o que se configura como outro recurso interessante utilizado por Danilo: junto de Ana, somos transportados para o passado, de modo que, a partir deste ponto, a Ana do passado é quem assume a narrativa.

Naturalmente, o fato de outros personagens como Ricardo, Tiago, Rambo e Rafael assumirem a narrativa ao longo do texto, causa certo estranhamento. Afinal, se tudo que estamos lendo nos é apresentado em virtude da consciência de Ana, como é possível termos acesso aos pensamentos e emoções dos demais personagens? Isso, no entanto, não diminui a obra, não se configura como problemático e tampouco, creio, se trata de uma reflexão a qual muitos leitores se dediquem.

Em Arma de Vingança, Danilo Barbosa se revela um escritor impiedoso, que flerta com o universo feminino e que critica duramente os laços entre política e crime organizado. Embora mergulhe nas motivações dos seus personagens – nos cientificando, por exemplo, da infância de Ricardo, cujo comportamento do pai e a conivência da mãe se revelam como propulsores do seu caráter doentio –, Danilo não se dedica a uma construção mais minuciosa dos mesmos, o que é positivo aqui, optando por uma narrativa breve, objetiva e cheia de ação, durante a qual tudo o que o leitor tem a fazer é amar e odiar. O juízo de valor fica por conta do leitor, pois inexiste no contexto da trama, proporcionando-nos uma catarse completa.

Arma de Vingança se revela como uma obra inspiradora para as mulheres. Não que essas devam seguir os passos de Ana (à arte o que é da arte, ok?), mas no sentido de fazê-las lembrar do poder que elas têm, bem como de ajudá-las a rechaçar a concepção de amor enquanto algo a ampará-las ou resgatá-las. O amor, bem nos ensina Ana, é algo possível apenas depois que uma mulher resgata a si mesma.

BARBOSA, Danilo. Arma de Vingança. São Paulo: Universo dos Livros, 2015, 240 p.

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