Direção: John Madden

Quero poesia em minha vida. E aventura. E amor. Aci
São esses os apaixonados dizeres – enunciados pela doce personagem de Gwyneth Paltrow – com os quais o telespectador é brindado ainda nos primeiros minutos de Shakespeare Apaixonado, filme vencedor de sete óscars no ano de 1999. Nesse ponto, devo confessar a minha provável inaptidão para comentar essa obra de John Madden, tal é a variedade de opiniões por mim identificadas nas tantas pesquisas que fiz na internet. Os sete óscars a ela cedido – em especial no tocante às categorias Melhor Filme, Melhor Atriz (Gwyneth Paltrow) e Melhor Atriz Coadjuvante (Judi Dench) são alguns dos pontos nevrálgicos dos críticos ao comentarem a obra, que, a princípio, eu defino como belíssima, reconhecendo, porém, o fato de a mesma deixar o telespectador com a sensação de haver-lhe faltado algo.
Nesse âmbito, se eu quisesse (e pudesse) listar o que falta a Shakespeare Apaixonado, eu colocaria, como primeiro elemento da lista, a consistência. Embora ciente da possibilidade de estar eu equivocado, parece-me ser inconcebível ao telespectador moderno uma história de amor – estória, para este caso – alicerçada em uma premissa inverossímil, como é o caso do romance entre Will (Joseph Fiennes) e Viola (Gwyneth Paltrow). Esta última, antes mesmo de conhecer o seu amado, já era, de alguma forma, apaixonada pelo mesmo, tal era o seu encantamento diante das peças que assistia no magnífico The Rose Theatre, onde, na vida real, Shakespeare realizou os seus primeiros trabalhos, acredita-se. O personagem de Fiennes, por sua vez, apaixona-se pela heroína à primeira vista, deslumbrando-se com a sua imagem ao conhecê-la durante uma valsa. E aí temos um outro problema: enquanto Will descreve para seu companheiro a bela mulher que contempla diante de si, a sua descrição não corresponde ao que o telespectador vê de fato.
Aqui, vale tecer alguns comentários sobre a atuação de Paltrow
Ainda focando as atrizes, prefiro não entrar no mérito da premiação com o óscar à Judi Dench, não podendo negar, todavia, que as três ou quatro aparições da atriz como a imponente Rainha Elizabeth, somando algo próximo de seis ou sete minutos, são o suficiente para que o telespectador perceba que Dench não está ali a passeio. Acredito haver uma certa tendência a exaltarmos a atuação de atores idosos no cinema, não sei se por respeito ou se pelo brilhantismo que o tempo, naturalmente, atribui a esses atores, mas isso nem me parece lá de grande relevância. A personagem de Dench, com sua fala incisiva, sua expressão lacônica, dividida entre a consciência da dureza de ser mulher e a necessidade de fazer a justiça dos homens, coloca a atriz em alto patamar, rendendo-lhe, sim, muitos merecimentos.
Quanto a Fiennes, não resistirei a mencionar que o mesmo não está, infelizmente, tão, digamos, “exposto” como estaria quatro anos mais tarde em Mata-me de Prazer (2002). A despeito dessa lástima, porém, o ator defende bem o seu papel, dando vida a um Shakespeare romântico, engraçado, o que fica difícil de imaginarmos sobre o dramaturgo à leitura de tragédias como Otelo, Hamlet e mesmo Romeu & Julieta. A meu ver, Fiennes aparenta ter a idade certa para o papel (tinha apenas 28 anos na ocasião das gravações, mas o personagem aparentava estar na casa dos trinta) e a aparência pertinente ao que o diretor pretendia: sedutor, com um olhar que, de acordo com a necessidade, se alterna entre o frio, o piedoso e o apaixonado. Isso, porém, ainda não o torna digno do óscar e fico feliz que a Academy of Motion Picture Arts and Sciences não haja cometido em relação a ele o mesmo erro que cometeu ao premiar Paltrow. Já a indicação do mesmo na British Academy of Film and Television Arts, na categoria Melhor Ator, e no MTV Movie Awards, na categoria Melhor Revelação Masculina (e que revelação...!) parecem-me justas.
Talvez pela mescla de romance, comédia e fatos e personagens reais, Shakespeare Apaixonado chegue ao final como uma obra inacabada, ou mesmo como uma obra que tinha às mãos tudo o que lhe era necessário para ser ainda maior, não sabendo aproveita-lo, contudo. Isso, porém, está longe de reduzi-la a um filme ruim. Muito pelo contrário, tratamos aqui de uma obra bastante corajosa por apresentar um Shakespeare sensível e “gente boa” quando tanto especula-se acerca do caráter, sexualidade e religiosidade do verdadeiro William Shakespeare. Uma bela direção de arte, um impecável figurino e texto apaixonado. Tudo isso coloca o filme em merecido destaque, efetivando-o como aquela estória que a gente pode assistir por repetidas vezes com o mesmo encantamento. Enfim, um bom filme. Um bálsamo para almas, tal como a minha, apaixonadas...
(...)
– Queres partir? Ainda não amanheceu. Do rouxinol – não da cotovia – era a voz que te feriu o ouvido. Canta assim todas as noites. Ouve, amor, é o rouxinol.
– Foi a cotovia... anunciando o sol... não o rouxinol. Olhe, amor, o rubor das luzes invejosas que tinge as nuvens no levante. As velas noturnas se apagaram. A aurora pousa os pés na crista das montanhas. Devo partir para viver... ou ficar e morrer.
– Não é a luz do dia que vês. É um meteoro, talvez, que o sol exala para guiar-te esta noite como uma tocha a caminho de Mântua! Fica mais um pouco. Ainda é cedo.
– Que me prendam. Que me matem. De bom grado teu desejo vou cumprir. Prefiro ficar. Não quero partir. Oh morte, és bem-vinda! Julieta assim o quer.