quinta-feira, 12 de maio de 2022

Sobre se jogar na vida



No último sábado, aventurando-me em mais uma trilha guiada, fui presenteado com as belas paisagens no trajeto entre a Serra da Moeda e Marinho da Serra – que fazia parte do percurso feito pelo ouro de Minas Gerais com destino aos portos do Rio de Janeiro. Todavia, se por um lado fui privilegiado pelas belezas do caminho – a envolvente neblina do início, o Pico do Itabirito, os pequenos vilarejos, a charmosa cachoeira etc. – por outro, tive a contemplação prejudicada pelas minhas próprias limitações.

Eis que na segunda metade da caminhada, quando já percorridos cerca de 4km, a minha limitação visual, unida à falta de equilíbrio e ao cansaço físico, se apresentou como um obstáculo real à atividade. Caí pela primeira vez, sem imaginar que as dificuldades ainda por vir me levariam a cair pela segunda, terceira etc.

O constrangimento era um fato, sobretudo quando, observando as minhas dificuldades, participantes com os quais eu ainda não caminhara me perguntaram se aquela era a minha primeira vez naquele tipo de atividade. Todavia, se havia o constrangimento, havia também a solidariedade e a gentileza típicas de quem costuma participar dessas atividades, sempre a me amortecerem as quedas (pois a caminhada é individual, mas nunca solitária...).

Se nas experiências anteriores eu chegara ao fim da caminhada feliz e orgulhoso pelas dificuldades transpostas, o prazer não se fazia presente desta vez, quando – assentado no restaurante da simpática Pousada Estalagem Moeda Real – eu me percebia certo de não mais querer passar por experiências como aquela.

Não obstante, havia também algumas certezas e aprendizados que nem mesmo o meu cansaço, vergonha e joelho ralado podiam abafar, quase como uma vitória subjacente a um aparente fracasso. A saber: a cada queda, eu me levantara imediatamente (ou quase); não me faltara ajuda em nenhuma das dificuldades (e aqui destaco o nosso guia Marcelo, pessoa de um raro senso de humanidade, e o Eurico, participante que, sem querer, mas com imensa boa-vontade, acabou por se tornar meu guia em alguns momentos).

E, acima de tudo, a conclusão que me veio – à custa de muito esforço, mas como que um profundo suspiro de liberdade – foi a de que não se trata de vencer ou fracassar, de se sair bem ou mal, mas, sim, de viver as experiências. É na experiência que a gente se percebe, detectando as nossas forças e fraquezas e, por conseguinte, realizando ajustes, decidindo-se quanto ao que evitar ou repetir.

Mais do que malogros e êxitos, a experiência nos proporciona o autoconhecimento, acompanhado daquela doce sensação de que, a despeito dos resultados, nós encaramos mais um desafio. Perceber-se, porém, só vem de uma disposição e abertura para a vida, com as dádivas e reveses que lhes são próprios.

Eu desejo que você se jogue na vida, e que, em cada mergulho, conheça um pouco mais deste que será o único a acompanha-lo até o final dessa longa e imprevisível caminhada: você mesmo.


quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Pânico (Scream, 2022)


Foi num remoto ano de 1997, quando as vídeolocadoras nem sequer sonhavam com a sua extinção, que tive o privilégio de assistir, por meio de uma fita VHS, àquele que inaugurou uma nova fase no gênero terror. Cinema era um luxo para a minha realidade de então, de modo que eu só vim a adentrar uma sala pela primeira vez no ano seguinte, quando Titanic (Titanic, 1997) convenceu a minha mãe a, numa tarde aleatória, surpreender a mim e à minha irmã com um “meninos, vamos ao cinema?”.

Não haver conhecido o ghostface no cinema, porém, em nada prejudicou a minha experiência com Pânico (Scream, 1996), que, alguns meses antes, virara até matéria de alguns telejornais. Era noite. Estávamos eu e minha mãe – grande companheira para filmes de terror e afins – nos primeiros minutos daquele filme tão esperado quando acabou a energia elétrica, frustrando a nossa experiência. Em instantes, porém, a luz retornou, nos permitindo acompanhar as desventuras de Sidney Prescott (Neve Campbell) e companhia.

Neste ponto é possível que você, leitor, esteja a se questionar: “Mas por que diabos esse cara não para de divagar e parte logo para a discussão do novo filme, que é o que de fato importa?” E eu respondo justificando o meu relato intimista pela palavra que mais me vem à mente quando penso em Pânico (Scream, 2022), informalmente chamado de Pânico 5: nostalgia.

Sim, pois, para cinéfilos da minha geração, que tiveram a grata oportunidade de assistir ao nascimento dessa franquia em uma conturbada adolescência, falar desse novo filme é falar de nostalgia, homenagem, recordações. É, enfim, uma experiência certamente distinta daquela vivida pelos que ora são apresentados à franquia.

O retorno de alguns personagens – além dos óbvios Sidney, Dewey (David Arquette) e Gale (Courteney Cox) – é um entre os muitos elementos da homenagem que se pretende Pânico 5. Judy Hicks (Marley Eve Shelton), sobrevivente de Pânico 4 (Scream 4, 2011) e desafeto de Gale naquela ocasião, retorna aqui como xerife de Woodsboro e mãe de Wes (Dylan Minnette), cujo nome, por sua vez, homenageia o saudoso Wes Craven (1939 – 2015), criador da franquia.

Martha Meeks (Heather Matarazzo), que tem breve aparição em Pânico 3 (Scream 3, 2000) como irmã de Randy (Jamie Kennedy) – sobrevivente do primeiro filme que não durou muito no segundo – é aqui mãe dos gêmeos Mindy (Jasmin Savoy Brown) e Chad (Mason Gooding). A propósito, são fantásticas as conexões que o filme estabelece entre Mindy e o falecido tio Randy... Uma curiosidade: o pôster de divulgação de O Albergue 2 (Hostel: Part II, 2007) é estampado por Heather Matarazzo, cuja personagem, muito embora apenas coadjuvante no longa, é a que tem a morte mais assustadora...

Outro que reaparece, proporcionando-nos uma grata surpresa, é Billy (Skeet Ulrich), assassino do primeiro filme e o único que realmente merece o título de galã em toda essa franquia. Se tivemos a mãe do rapaz em Pânico 2 (Scream 2, 1997), agora temos a sua própria filha Samantha (Melissa Barrera), que ora divide com Sidney o papel de mocinha.

E, naturalmente, não podemos cometer o absurdo de esquecer Roger L. Jackson, ator de voz que interpreta o Ghostface em todos os filmes da franquia. Quem assiste a Pânico 5 no idioma original tem a oportunidade de escutá-lo.

E por falar nisso, atentemo-nos para o cuidado presente até mesmo na dublagem brasileira, que nos trouxe Marisa Leal dublando Sidney, Marco Antônio Costa dublando Dewey, Andrea Murucci dublando Gale e Tatá Guarnieri dublando o ghostface, tal como em Pânico 4. Temos também Wendel Bezerra novamente dublando o Billy, vinte e cinco anos após o primeiro filme...

São muitas as semelhanças e discrepâncias com os demais filmes da franquia. Em se tratando de diferenças, me chamou a atenção o fato de Pânico 5 ter maior apelo emocional (seria exagerado dizer “dramático”), trazendo um bom número de jovens destinados a morrer – como em todo bom e velho filme de terror –, mas nos levando a nos importarmos com eles. Aqui, os personagens parecem menos aleatórios, o que nos leva, por exemplo, a sofrer pela morte de Judy e do filho Wes, bem como a torcer pela Mindy etc. Penso que um conjunto de coisas contribui para tanto: o valor afetivo da franquia, a boa construção dos personagens e, claro, os requintes de crueldade presentes em cada morte, devidamente compensados ao final. Pois, sim, o filme soube nos proporcionar uma catarse (melhor assim...).

Importante lembrar que – tanto por ser esse um filme em que tudo é possível como pelo absurdo da inabalável sorte dos três grandes protagonistas da franquia – um deles precisa morrer aqui, o que foi bastante ousado. Dewey, lembrando-se tardiamente da valiosa dica dada pela Sidney ao final do terceiro filme (“Atire na cabeça!”), acaba por se colocar nas mãos do assassino, proporcionando a qualquer fã da franquia uma cena deveras dolorida. Não surpreenderia, porém, se o personagem retornasse numa provável continuação, revelando-se sobrevivente ao massacre de Pânico 5.

A propósito, a chamada “suspensão da descrença” configura-se como algo deveras necessário em todos os filmes da franquia e neste de modo especial. Afinal, temos o personagem que “vai dessa pra uma melhor” com uma única punhalada do ghostface, enquanto outros, depois de uma série delas, se recupera em questão de minutos; temos uma adolescente/jovem (Mikey Madison) nocauteando um homem adulto e ex-xerife; temos uma policie pra lá de ineficiente e um hospital ermo e sem nenhum tipo de segurança. Enfim, todos os absurdos favoráveis ao roteiro, o que torna totalmente viável o retorno do personagem tão querido que é Dewey.

Vale dizer, aliás, que ele, assim como Sidney e Gale, parecem não haver sido tão explorados aqui, o que nem de longe significa que não hajam recebido a devida importância. Ocorre que, além de ser esse um filme ágil, há nele a intenção de apresentar uma nova protagonista. Diante disso, os realizadores parecem haver feito um bom trabalho ao se dedicar aos veteranos sem diminuir as irmãs Samantha e Tara (Jenna Ortega), em torno das quais gira toda a trama.

Do trio sobrevivente sabemos pouco, mas o suficiente: Sidney, tal como no terceiro filme, reside em outra cidade, agora com filhos (tomara que frutos de um relacionamento com o detetive interpretado pelo Patrick Dempsey em Pânico 3...), retornando para Woodsboro em razão da morte de Dewey. Ele, por sua vez, é um xerife aposentado vivendo em um trailer. Ele e Gale (assim como os seus intérpretes na vida real) não estão mais juntos, o que tem como causa a carreira de Gale. A química entre os atores, porém, permanece quase palpável.

Enfim, Pânico 5 se sai bem em todos os seus objetivos: prestar uma homenagem aos fãs e ao criador da franquia, ressuscitá-la e contar uma boa história. Parece-me, porém, haver sido dedicada demasiada atenção à metalinguagem e às conexões com os filmes anteriores e pouca atenção ao desfecho, que nos revela assassinos irrelevantes com motivações nada criativas. Todavia, considerando que a própria Sidney caçoa de tais motivações, penso que isso talvez seja intencional, vez que nesse longa importa muito mais o durante do que a revelação final. Ademais, trata-se de um roteiro que, ao abraçar com força a metalinguagem, brinca com o telespectador por meio da subversão, surpreendendo com o diferente quando se espera o óbvio e oferecendo o óbvio quando se espera a novidade. Um bom exemplo disso é a insinuação de uma morte a la Psicose (Psycho, 1960) que não acontece.

Outro ponto é que, embora há quem diga ser possível uma boa experiência com Pânico 5 sem conhecimento dos demais filmes da franquia, considero isso um tanto improvável. E digo-o porque, por mais que o próprio filme ofereça uma contextualização, penso se tratar de muita informação para um telespectador não iniciado na franquia. O primeiro filme me parece essencial. Há ainda as muitas referências a Stab – filme de terror existente no universo de Pânico, estabelecido a partir do segundo filme da série – que tende a dificultar a experiência.

Enfim, Pânico 5 – ao menos a meu ver – não decepciona os fãs da franquia, a despeito das falhas comuns a qualquer obra (sobretudo aquelas com forte apelo comercial). Embora o filme possa soar como despedida, o bom senso nos leva a considerar Pânico 5 como um novo fôlego para a franquia, que, a depender do resultado nas bilheterias, obviamente ganhará uma continuação (a não ser, claro, que optemos pela ingenuidade de acreditar que os produtores valorizam a arte acima dos lucros).

Resta-nos, então, aguardar o desenrolar dessa história, por ora detendo-nos ao sentimento de gratidão ao estranho ruído e à janela assustadoramente aberta que, há vinte e cinco anos, amedrontou Kevin Williamson, inspirando-lhe o roteiro do longa de 1996. No mais, espero que isto não aconteça, mas, se porventura a vida imitar a arte e estranhos acontecimentos lhe perturbem numa calada e solitária noite, atente-se a estas dicas: não atenda ao telefone, não abra a porta, não tente se esconder, não entre em... pânico.



segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Sobre livros e tevê

Embora bem-intencionada, esta ilustração sempre me deixa pensativo.

Vamos por partes, começando pelo fato de ela estar desatualizada, vez que hoje melhor seria substituir a imagem da tevê pela de um smartphone devidamente conectado a todas as redes sociais possíveis. Não obstante, ignoremos esse pormenor, até por ser a tevê algo ainda muito presente em nossa rotina.

Outro ponto que me parece problemático é a vilanização da tevê e a exaltação do livro, como se este fosse por si só a solução para tudo e aquela fosse uma maldição, um veículo do qual não se possa fazer bom uso.

Nesse ponto, eu fico pensando nas novelas mexicanas que eu tanto adoro (risos) e nas boas opções que há na programação televisiva, mas que precisam ser garimpadas, vez que, por não atraírem as massas, estão sempre fora do horário nobre. Fico pensando também em homens de incontestável inteligência, como Adolf Hitler, e sua nefasta atuação sobre o mundo.

E é daí que me vem a reflexão de que o bem ou o mal nem sempre estão nas coisas em si, mas no uso que dela fazemos, por mais clichê que isso soe. Ademais – por mais bem-vinda, necessária, útil, importante e indispensável que seja a leitura – há que se desconstruir a romântica e pouco pragmática ideia de que os problemas do mundo cessariam a partir do momento em que todos aderissem ao hábito de ler.

Isso não é verdade, pois mesmo o hábito de leitura precisa ser precedido por políticas que a tornem acessível. E, aqui, nós estamos falando de educação, de inclusão social e de uma série de coisas que devem se dar não a partir da leitura, mas antes dela; para conduzir a ela, e não o contrário.

Ademais, havemos que pensar também na qualidade da leitura. De que leitura estamos falando, afinal? Seja lá o que for, é ótimo que as pessoas estejam lendo, mas seria desonesto ignorar o abismo existente entre “Dom Casmurro” e “Os segredos da mente milionária”, certo?

Enfim, em suma, a mensagem aqui é: incentivemos a leitura, sim, mas sem romantiza-la, pois opiniões estanques são, não raro, problemáticas, e o mundo, por mais cruel que isto pareça, está longe de ser assim tão quadradinho.


segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Não existe relacionamento fracassado!

“Não deu certo”. Eis uma afirmação comumente utilizada como referência a um relacionamento encerrado. Afirmações desse tipo partem da equivocada ideia de que as coisas precisam ser eternas. Caso contrário, é porque “não deu certo”. Ora!, não existe relacionamento fracassado. Existe é relacionamento terminado. Relacionamento que, quando se tornou disfuncional, foi prudentemente interrompido.

Neste ponto, você pode estar questionando: “Mas isso não faz sentido! Por uma lógica antonímica, se uma coisa parou de dar certo, é incontestavelmente óbvio que ela passou a dar errado!” Calma... e atente-se para o fato de que a abordagem aqui não se dá no campo semântico, mas, sim, na perspectiva que temos de relacionamentos e términos, comumente oriunda do mito do amor romântico.

O tão famigerado “final feliz” ainda é para nós sinônimo do “e viveram felizes para sempre”. Se nos fosse revelado que, alguns meses após o conhecido final, Cinderela se cansou daquela monotonia, pegou a sua parte da grana e resolveu dividir apartamento com as meias-irmãs, todo aquele amor vivido entre ela e o Príncipe perderia o valor para nós, pois só vale se for “para sempre”, embora nem a própria vida o seja. Não raro, um namoro terminado é lembrado (e avaliado) pelo desfecho trágico e não pelos anos bem vividos. E, nesse sentido, o fato de a história haver tido um fim nos leva a considerar todo o resto como tempo perdido, como se, para valer a pena, as coisas precisassem ser eternas.

É óbvio que ninguém embarca num relacionamento pensando no dia em que ele vai terminar. Da mesma forma, ninguém começa em um novo emprego pensando algo do tipo “quero dar o fora daqui em seis meses” ou se muda para uma casa nova afirmando “vou permanecer nesse imóvel só até ano que vem”. A princípio, a gente investe nas coisas objetivando que elas durem, e isso é natural e até saudável em certa medida. Mas fato é que um dia somos demitidos ou recebemos uma proposta de emprego melhor; um dia o aluguel fica muito salgado e a gente precisa procurar por outro imóvel; um dia os estilos de vida, os sonhos, os comportamentos, as visões de mundo não mais se alinham... e a gente precisa pôr fim a certos relacionamentos.

É claro que há aqueles relacionamentos que já começam “errados”, por assim dizer, mas esses são casos à parte, e mesmo eles, de alguma forma, também cumprem com o seu papel em nossa jornada. De um modo geral, porém, relacionamentos não dão errado. Eles apenas param de dar certo ou nos proporcionam algo distinto do que deles esperávamos.

Errada é a falsa ideia de eternidade que, comumente, nos leva a jogar na lata de lixo tudo aquilo que, embora haja chegado ao fim, foi maravilhoso enquanto durou (ou que, mesmo nunca havendo sido maravilhoso, ao menos nos ensinou a nunca mais nos colocarmos em uma situação afim). É triste ver pessoas definirem como “fracassado” um relacionamento que gerou até filhos! Meu Deus! Se há filhos, então deu certo. Se houve amor ou mesmo tesão, deu certo, sim. Se foi legal durante dois ou três dias, já deu super certo! Se nos ensinou a fazermos melhores escolhas, deu certo. Se proporcionou aprendizado, amadurecimento e autoconhecimento, então valeu, cumpriu com o seu propósito, deu certo...

Essa falsa ideia de eternidade é muito comum nos relacionamentos, fazendo-se presente desde a tatuagem com o nome do companheiro até a vida completamente alicerçada naquela parceria. Mas não é só nos relacionamentos que essa ideia se faz presente. Veja você que o nosso modo de viver pressupõe uma ilusão de que a própria vida neste plano é eterna. Nós, simplesmente, não somos suficientemente treinados ou maduros para lidar com a finitude das coisas. Mas fato é que as coisas são transitórias, sendo esta uma verdade incontestável. E penso eu que, quanto mais conscientes formos da inconstância das coisas, mais propensos estaremos a estabelecermos bases firmes em nós mesmos, sem construirmos castelos sobre alicerces de areia.

Sabe aquela frase que diz “foi bom enquanto durou”? Pois é... Ela é clichê, mas expressa uma verdade equivocadamente contrariada por afirmações do tipo “o relacionamento não deu certo”, “o romance fracassou” e afins. As pessoas estão em constante mutação, e é inteligente e até mesmo saudável reconhecer quando as discrepâncias, comuns em todo e qualquer encontro, estão fazendo a relação ruir; quando os interesses já não são os mesmos, inviabilizando, assim, a manutenção de algo que já não faz sentido.

Ou seja: até mesmo a concordância entre ambas as partes quanto a haver chegado a hora de cada um seguir o próprio rumo é sinal de um relacionamento saudável e bem-sucedido. Pôr fim a uma relação por vezes se revela como um verdadeiro ato de amor, pois não raro acontece de haver amor, mas não haver possibilidade de alinhar os objetivos, valores, expectativas e afins. É quando chega o momento de, por amor – amor pelo parceiro e amor-próprio – libertar o outro e libertar a si mesmo.

A intenção aqui, no entanto, não é induzi-lo a adotar a efemeridade como modo de vida a partir de então. Pelo contrário, o que pretendo é convidá-lo a seguir embarcando nas experiências com a intensidade que elas comumente exigem e merecem. Mas, se porventura tais experiências chegarem ao fim, não as rotule como fracassadas, pois isso seria enveredar por uma inverdade que só traz tristeza e sensação de perda de tempo. Pelo contrário, comprometa-se, a partir de então, a modalizar a sua fala sempre que se referir ao relacionamento passado, substituindo “não deu certo” por “foi super legal e produtivo, mas tivemos que descontinuar” ou “deu certo, mas, quando começou a não funcionar, a gente achou por bem terminar”.

Mas é para dizer isso a você mesmo, e não para os outros, que não têm absolutamente nada com a sua vida. Não se trata de provar nada a ninguém, mas de saber isso internamente, sempre ciente de que, humanos que somos, por vezes a gente vai sofrer, por vezes a gente vai chorar, sentir raiva, mágoa... E está tudo bem, pois eu sei que é difícil... É difícil encarar de maneira tão inspirada um relacionamento pelo qual estamos ainda enlutados. É difícil conceber dessa maneira um relacionamento abusivo (pelo qual ninguém deveria passar e que de maneira alguma pretendo romantizar aqui). Atribuir sentido, porém, pode ressignificar e amenizar a dor de uma experiência dolorosa. Trata-se de uma mudança de paradigma que denota gratidão à vida pela experiência vivida e, sobretudo, ao outro, que atravessou conosco uma fase que, por alguma razão desconhecida, se fez tão necessária ao nosso processo de aprendizagem. Esse, sim, interminável.

Nesse sentido, não entremos em um relacionamento tendo a eternidade como meta, mas, sim, para fazer dar certo, para evoluir, para ser feliz e fazer feliz enquanto possível for, sem nunca esquecer as palavras do poeta: “Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure”.

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Este artigo foi originalmente publicado em minha coluna nos portais O Segredo e Eu Sem Fronteiras.


domingo, 1 de agosto de 2021

Àqueles que não se importam

Há pouco mais que uma década, eu me apaixonei por alguém que não me queria. Seria algo trivial se a história se resumisse a isso. Infelizmente, porém, não contente em simplesmente não me corresponder, o que era um direito dela, essa pessoa também espalhou entre os nossos colegas de faculdade que bastava olhar para mim para saber o motivo de eu não ter uma chance, alegando que teria vergonha de ser vista comigo e chegando mesmo a imitar o meu nistagmo (movimento do globo ocular).

Naturalmente, a minha autoestima já não era lá essas coisas. Aquela situação, porém, acrescera mais um elemento ao meu repertório de razões para não gostar de mim mesmo. A partir de então, o meu interesse afetivo e/ou sexual por alguém sempre viria acompanhado do sentimento de menos valia, o sentimento de não ser digno do objeto amado. Era sempre uma paixão que já vinha acompanhada de dor desde o seu estágio embrionário.

Nem os meus amigos mais próximos, que acompanharam toda a história, sabem que, nos dois anos seguintes, eu tentei contato com essa pessoa. Para pedir-lhe uma chance? Não! Àquela altura, não havia de minha parte nenhuma expectativa de reciprocidade, sendo a razão da minha insistência apenas uma, talvez mais complexa e absurda do que quaisquer ilusões românticas: eu queria que aquela pessoa se importasse.

Sim, eu precisava tanto que aquela pessoa fizesse um gesto de humanidade na minha direção, precisava tanto que ela tivesse e demonstrasse empatia – palavra que ainda não estava em moda na ocasião – que cheguei até mesmo a enviar e-mails ao meu agressor pedindo que ele ao menos me respondesse que tudo não passara de uma brincadeira e que ele não tivera a intenção de me magoar.

Exatamente... Eu cheguei a praticamente formular para ele as palavras que eu tanto gostaria que ele me dissesse. Palavras essas que, naturalmente, nunca me foram ditas, ficando para o tempo a tarefa de amenizar a dor comum àquelas memórias.

Muitos anos se passaram, até que, no início de 2017, eu me coloquei em situação equivalente. Sim, pois pessoas carentes fazem isso. Pessoas carentes tendem a ficar obcecadas por aquele que, inconscientemente, elegem como o salvador de suas vidas, o ser que dará sentido a tudo, trazendo cor e alegria às páginas cinzentas da existência.

O contexto era diferente, a pessoa era diferente, e eu mesmo era outro se comparado ao universitário de há uma década. Os padrões, porém, permaneciam ali, e lá estava eu escrevendo poemas e tentando me fazer presente na vida de alguém que estava numa sintonia tão distinta da minha (e que por “sintonia” entenda-se classe social, hobbies, valores, sexualidade e, claro, sentimentos).

Passaram-se três anos cheios de histórias que não cabem aqui, mas que me levaram à necessidade de uma conversa. Uma conversa que, na minha cabeça bagunçada, me serviria como uma espécie de encerramento. A intensidade de um novo e último contato com aquela pessoa que eu já não via há dois anos e alguns meses, mas que ainda me parecia tão presente, seria a solução para a minha dor. Ao menos foi esta a mentira contada pela minha mente.

E eis que, diante das minhas tolas e imaturas tentativas de concretização daquela conversa, deparei-me novamente com agressões similares àquelas que escutei há uma década: “não sou seu amigo”, “não me interessa”, “você é vitimista”, “sua conversa cansa qualquer um” etc.

O encontro e a conversa tão desejada, naturalmente, não aconteceram. Ao menos não naquela ocasião. E lá fui eu, ao longo do ano seguinte, a mendiga-los, fosse através de e-mails sem resposta ou de áudios nunca reproduzidos. Lá estava eu a mendigar a atenção que nunca me fora espontaneamente concedida...

...até o dia em que eu paguei por essa conversa.

Ok, eu sei que soa muito mal dizendo assim, razão pela qual devo deixar claro que isso aconteceu dentro de um contexto muito específico, o que nem por isso tira o peso do fato: eu paguei por uma conversa. Eu, que por tantas vezes havia pagado por sexo em razão de uma carência antiga e autoestima minguada, me vi chegado ao ponto de pagar por uma conversa.

É verdade que nos meses que se seguiram ao encontro por mim mendigado ao longo de um ano eu me senti bem e até – pasme – grato pela atenção e escuta a mim concedidas. Todavia, à medida que a lembrança dele já não vinha acompanhada de toda aquela apaixonada carga emocional, a razão veio ocupando espaço e, com ela, a dor por mais uma vez eu haver implorado por algo que só tem valor quando espontânea e amorosamente cedido.

Eu queria que ele se importasse.

E hoje, enquanto essa pessoa atrai milhares de seguidores e posta em suas redes os resultados de sua disciplinada dieta e vida fitness, cá estou não como um ser iluminado que, havendo tirado de uma situação difícil um aprendizado de valor imensurável, venho compartilhar contigo o meu vasto conhecimento a fim de conduzí-lo à elevação espiritual. Pelo contrário, sou um cara que ainda lida com isso aos tropeços.

Sou um cara que reconhece haver se colocado na posição de ser humilhado e que sofre pela impossibilidade de voltar atrás e corrigir os seus atos. Eu sou o cara que ainda passa dias inteiros na cama a debater-se com a lembrança das agressões que me vieram como uma profanação do ser que eu idealizara. Eu sou o cara que está tentando, mas que ainda não consegue, não sabe ou não quer lançar sobre essa história um olhar desprovido das próprias emoções.

Sim, eu sou esse cara, mas sou também o cara que, tomando emprestados os dizeres atribuídos a William Shakespeare, “aprendi que não importa o quanto eu me importe, pois algumas pessoas simplesmente não se importam”. O cara que pode lhe assegurar de que, quando a vida lhe colocar em situações já vividas anteriormente, a saída nunca estará nos mesmos comportamentos de outrora. O cara cuja experiência ensinou que ninguém pode nos dar aquilo que não fomos capazes de dar a nós mesmos e que qualquer gesto de humanidade, quando condicionado ao que quer que seja, é vazio, insincero e desprovido de valor.

Por favor, faça por você o que eu não fui ainda capaz de fazer por mim e, antes de se doer pela certeza de que o outro simplesmente não se importa, verifique o quanto VOCÊ se importa. Ofereça a você o cuidado, a atenção e o amor que você tanto merece.

Eu sei que é difícil. É desafiador se amar em meio à tempestade. É difícil se amar quando sob um governo incompetente e desumano. É difícil se amar quando uma ameaça invisível ceifa tantas vidas mundo afora e ameaça a nossa própria. Eu sei que é difícil, mas sei também ser esse amor a arma fundamental contra a indiferença, o desamor e a crueldade que nos rodeiam.

Eu desejo a você o que eu desejo a mim mesmo: que um dia você encontre o amor da sua vida! Mas que, antes, você seja tomado de um grande amor por si mesmo. Eu desejo que você se ame. Que você se ame de verdade.

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Os iluminados da Zona Sul

Como vivem? De que se alimentam? Como se reproduzem?

Bom, as variações são muitas, na verdade, mas, em sua expressão mais estereotipada, eles são tipos curiosos com uma serenidade falsamente afetada, similar à Monja Coen no início da fama (eu gosto muito da Monja Coen, ok?). A voz de veludo é, aliás, um recurso necessário ao convencimento (dos outros e deles próprios) de que transcenderam todas as vicissitudes humanas.

Mas cuidado! Quando confrontados com questões da vida real, é comum que eles sejam dominados pelo instinto animal que habita todos nós, extravasando toda a sua ira por meio da crueldade, dos insultos e de toda a sorte de agressões.

Em razão de uma dieta extremamente restritiva, dado o seu rígido estilo de vida vegano, alguns deles têm uma aparência subnutrida, o que costuma fazer parte do pacote que lhes permite jogar na cara da sociedade o elevado patamar no qual se encontram na escala evolutiva.

Outros, porém, preferem sobrecarregar as suas redes sociais com fotografias ostentando asanas (posturas de yoga) com uma perícia impecável, ou cliques nos quais eles se exibem em posição de lótus (a despeito da baita incoerência que há no fato de querer se exibir em um momento teoricamente voltado à introspecção e à desconexão com o mundo externo).

São brancos em sua maioria, e os “núcleos ascensionais” que costumam frequentar se localizam na zona sul em sua quase totalidade. Até porque não é qualquer um que dispõe de 300 ou 400 reais para investir nas suas dispendiosas terapias. Portanto, lamento informar, mas se você vive na periferia e “vende o almoço para comprar a janta”, não há muita chance pra você, pois a evolução espiritual está incontestavelmente condicionada ao seu poder aquisitivo (sim, contém ironia...).

Existe, aliás, uma incoerência neles (a incoerência é, por sinal, a sua marca registrada). É quase consensual a sua admiração por pessoas como Buda, Jesus e afins. Os Iluminados da Zona Sul, porém, não parecem nada propensos a adotar o estilo de vida abnegado e miserável escolhido por esses mestres que eles tanto dizem admirar.

Alguns deles, ditos “terapeutas”, obtêm um rendimento superior a renda média da população, e surfam no vazio existencial de uma classe média perdida, imediatista e por vezes desacreditada nos métodos cartesianos.

É comum não gostarem de pobre, o que está sutilmente implícito em um discurso aparentemente inofensivo. Falam de autorresponsabilidade (conceito muito válido e bem-vindo, aliás) como apologia à meritocracia e negação às estruturas sociais segregacionistas dentro das quais eles são privilegiados; dizem que “a energia não mente” como forma de justificar, de uma maneira mui espiritualizada, os próprios preconceitos; defendem que “somos todos um”, mas “confundem” amor-próprio com egoísmo e individualismo quando isso lhes convém.

A sua filosofia (de fachada) é embasada em frases soltas de Chico Xavier, Sidarta Gautama, Gibran e afins, sempre defendendo o amor como a solução para o mundo (como de fato é). Acontece, porém, de você não ser acolhido com toda essa amorosidade ao recorrer a eles fora do contexto “terapêutico”. O que se justifica pelo fato de que a sua dignidade só lhes é notada enquanto você lhes estiver oferecendo algum lucro.

Eles alegam que o Reiki pode ser eficaz na diminuição do estresse e da ansiedade; defendem que a terapia tântrica, o ThetaHealing e o diabo a quatro podem amenizar quadros de depressão e oferecem, por meio das Constelações Familiares, respostas para todos os problemas existentes em sua vida! Curiosamente, porém, ignoram condenação por fraude ou mesmo discursos homofóbicos e machistas que envolvem essas práticas.

Nada é mais surpreendente e complexo que os Iluminados da Zona Sul, os quais, creio, só perdem para os militantes que clamam por liberdade e empatia, mas se convertem no demônio quando confrontados com opiniões divergentes das deles.

Eu fico me perguntando qual será o destino desses nobres conquistadores do nirvana. E se de repente a humanidade fosse visitada pelo bom senso, esvaziando os seus sofisticados espaços terapêuticos? Por quanto tempo duraria o seu “estado alterado de consciência”?

Bom, eu não sei. Tudo o que sei é que entre esses tantos ególatras travestidos de espiritualistas, há pessoas de fato comprometidas com o próprio aprimoramento, conscientes do próximo e empenhadas na elevação da humanidade a um novo patamar de consciência. Sim, tais pessoas existem, mas é premente ressaltar que, infelizmente, elas não são uma maioria, mas, sim, uma exceção. Em vez de procura-las, porém, eu sugiro algo melhor: que você procure se tornar uma delas.

P.S.: enquanto eu preparava este artigo para envio, vi-me dominado pelo intenso receio de que o mesmo causasse incômodo ou mesmo ofendesse a quem, definitivamente, não pertence ao grupo que eu pretendia apontar aqui. Por “apontar”, aliás, entende-se não um ataque desmotivado e meramente recreativo, mas, sim, por chamar a atenção para um problema real que tem causado danos à vida de pessoas.

Nesse sentido, ao reproduzir no texto um estereótipo extremado, o meu objetivo não passa por atacar pessoas, mas, sim, por trazer à tona uma questão social, a saber, a reprodução de preconceitos e práticas excludentes no contexto espiritualista.

Como esclarecido no parágrafo final, não há generalizações aqui, havendo, sim, a consciência de que, mesmo dentre aqueles que se enveredam pelos comportamentos aqui descritos, há os que o fazem sem intenção vilanesca, mas, sim, por falta de consciência social.

Este artigo, portanto, se configura como um convite à tal consciência, da qual nenhum espiritualista é privado. Muito pelo contrário, inclusive. Configura-se, também, como uma crítica à hipocrisia de nossa de cada dia.

Enfim, dada a fragilidade que se faz presente em todos no momento atual, bem como o meu receio em soar ofensivo (ou ao menos gratuitamente ofensivo), se fez necessário este post scriptum, que, espero, se faça suficiente para a compreensão do que se pretendeu aqui.

Texto originalmente publicado em minha coluna no Eu Sem Fronteiras.

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Uma fase chamada Danielle Steel


Era um início de tarde cinzento de 2002. Chuviscava, é verdade, mas aquele sábado estava cinzento mesmo porque, só pra variar um pouquinho, eu estava apaixonado pelo professor de História do pré-vestibular (aliás, quem não estava?). Assim, saindo da cursinho por volta do meio-dia, fui à banca de livros usados que havia lá na Rua dos Tamoios, em frente à antiga Telemar. Naquele tempo, a prefeitura não havia ainda proibido os camelôs.

Nessa banca, sempre havia livros da Danielle Steel, escritora do gênero Chick-Lit que me havia sido apresentada pela Irani, querida amiga da época. E foi nesse dia que eu comprei o meu primeiro livro, “Momentos de paixão”, por exatos R$5.

Irani e eu costumávamos cabular aula no pré-vestibular só pra ir até a biblioteca pública lá na Praça da Liberdade, onde ela, cega, pegava de empréstimo aqueles enormes volumes em braile. Antes de “Momentos de paixão”, aliás, eu já havia lido outras obras da Danielle Steel disponíveis no acervo da biblioteca. “Vale a pena viver” foi a primeira. Depois vieram outras tantas: “Uma só vez na vida”, “Um amor conquistado” (belíssimo...), “Acidente” etc.

Mas o que eu queria ler mesmo era um sobre o qual a Irani sempre mencionava como sendo maravilhoso – “Segredo de uma promessa” – mas que não existia no acervo da biblioteca. E eis que o mesmo me veio pelas mãos da minha irmã Patrícia, que, de tanto eu falar do livro, fez peregrinação pelas livrarias-sebo de Belo Horizonte e o encontrou, me dando de presente de Natal junto a outros dois: “Casa forte” e “Meio amargo”. O curioso é que “Segredo de uma promessa” foi o pior livro da Danielle Steel que eu já li. Ironias da vida... (risos)

Eu gostava de ler as estórias daquelas norte-americanas de classe média alta. Não sei por quê. Acho que o feminino em mim se identificava. Gostava de vê-las lutando pela família, se dando uma nova chance no amor, indo contra as convenções sociais e, claro, entregando-se ao amor de suas vidas...

Todavia, à medida que a vida real foi se impondo, o gosto pelas obras da Danielle Steel foi se esvaindo também. Mas sou sempre tomado de ternura quando os avisto aqui na estante, vez que tanto contam da minha história...

Contam da trajetória do leitor que eu sou; contam do amor fraterno que levou Patrícia a sair em busca do livro que eu tanto desejava; contam das paixões de um cara que, nas décadas seguintes, ainda quebraria muito a cara por isso; contam de uma amizade que se perdeu no tempo; e contam, sobretudo, dos primeiros raios de liberdade.

E veja só: se um dia eu encontrasse a Danielle Steel, eu pediria um autógrafo e também diria a ela que, finalmente, o dia não está mais cinzento...

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Talvez eu tenha raiva de mim mesmo...

Talvez eu tenha raiva de mim mesmo...

Talvez eu sinta raiva por haver me desculpado quando eu não tinha culpa, por haver tentado me explicar quando o outro simplesmente não se importava ou por haver me humilhado, dando, assim, razão ao agressor.

Talvez eu tenha raiva de mim mesmo por haver passado o maior pano para quem não se fez digno de tanto; por haver tratado como livro de cabeceira gente que, quando muito, me tinha como folheto descartável; por haver expressado profunda gratidão a quem, com ar de generosidade, fez o mínimo quando podia fazer tanto.

Talvez eu tenha raiva de mim mesmo por me haver regozijado com migalhas; por havê-las tomado como banquete quando não estava em condições de discernir altruísmo de esmola ou falsa empatia.

Talvez eu tenha raiva de mim mesmo por haver sido diplomático e não-violento quando devia ter tocado o foda-se; por haver ofertado a outra face quando o outro acreditava que “o mundo é dos espertos”; por haver me preocupado em ser bom quando o outro, ao desferir contra mim golpes em forma de palavras, se mostrava indigno de meu respeito e cordialidade.

Talvez eu tenha raiva de mim mesmo por haver insistido na escuta negada; por haver me preocupado em acertar as coisas com quem há muito se afastara emocionalmente; por haver pagado pelo que eu tanto almejava que me fosse humanamente concedido.

Talvez eu tenha raiva de mim mesmo por não haver sabido ou tido a coragem para dizer o que eu de fato desejava; por haver permitido ou mesmo colaborado para que regateassem o meu valor como ser humano; por haver aceitado uma entrega parcimoniosa e condicionada quando sabia que só uma entrega total, espontânea e desinteressada me traria verdadeiro alento.

Talvez eu tenha raiva de mim mesmo por haver mendigado atenção quando sabia que o preço era alto; por haver me contentado com a humanidade distorcida como quem aceita a bebida que, em lugar de matar a sede, desidrata.

Talvez eu tenha raiva de mim mesmo por também ter culpa; por haver me metido em determinadas situações ou, pior, por não haver saído delas quando era tempo, quando tudo apontava para um fim trágico.

Talvez eu tenha raiva de mim mesmo por haver buscado respostas onde só encontrei mais perguntas; por haver me afastado de mim para buscar no outro a cura para os meus males.

Talvez eu tenha raiva por haver me colocado em contextos aos quais eu não pertencia, por haver erguido castelos sobre alicerces de areia, por haver me colocado nas mãos de gente que tão pouco pode fazer por si mesma.

Talvez eu tenha raiva de mim mesmo por me haver guiado por expectativas alheias, por não haver corrido o risco de quebrar a cara em busca da concretização dos meus sonhos, por haver dito sim ou dito não quando queria dizer o contrário.

Talvez eu tenha raiva de mim mesmo por não haver chegado “lá” aos 30; por não haver atendido, aos 33, aos quesitos necessários para ser digno do amor deste ou daquele; por não haver conquistado, aos 37, aquelas coisas que não me interessam, mas que caracterizam o estereótipo do vencedor; por ser medíocre ou, pior, por julgar medíocre aquilo que eu genuinamente sou...

Talvez eu tenha raiva de mim mesmo por haver perdido tempo em demasiado, por haver perdido vida...

É verdade... Talvez eu tenha raiva de mim mesmo, e, se assim é, essa raiva evidencia a necessidade de perdoar aos demais, mas aponta, antes de mais nada, para a urgência de perdoar a mim mesmo, de fazer as pazes com esse outro que me habita e me faz companhia...

Que você possa se curar de si; saber-se vítima, mas saber-se algoz; perdoar-se e perdoar a todos; olvidar o passado e seguir em frente.

sábado, 5 de junho de 2021

Cuidado com discursos intimidatórios...

Cuidado com os discursos intimidatórios!

Cuidado com os posicionamentos que, com vista a inviabilizar o diálogo, direcionam o foco para as divergências em lugar das convergências. Cuidado com os argumentos pautados na dualidade típica de novela das nove que ignoram os diversos matizes presentes em todos os seres humanos, filosofias e esferas do espectro político.

Cuidado com os discursos que, objetivando força-lo a uma escolha neste pretensa disputa entre o bem e o mal, buscam desestabilizá-lo emocionalmente. “Se você não escolhe, então já escolheu o Toddy, o Nescau, a Pepsi, a Coca-Cola, o biscoito ou a bolacha”. Ou, mais cruel do que isso, buscam taxa-lo como ignorante, alienado, estúpido ou coisa que o valha.

E não se engane quanto ao fato de ser esta uma estratégia bem calculada, pois, seres relacionais que somos, é natural que a pressão e o cancelamento nos leve a agir contra os nossos princípios, não raro fazendo uma escolha que nos liberte do ostracismo, mesmo que essa não expresse a nossa verdade.

Cuidado com o discurso que adere a causas nobres e obrigatórias a todo e qualquer ser humano – o combate à fome, à miséria, ao racismo e afins – sem que tais causas sejam de fato a finalidade última.

Cuidado com o fanatismo que nos cega para as nossas próprias incoerências, hipocrisia e intolerância. Cuidado com as ideologias que lutam valendo-se das armas que dizem combater. Cuidado com tudo o que fomenta a separatividade, o ódio e a barbárie.

Mas, afinal de contas, de que lugar falo eu? Eu falo da periferia; falo do lugar do gay com deficiência que, depois de toda uma vida escolar na escola pública, teve o privilégio de cursar uma faculdade numa instituição de renome graças a um governo que me deu oportunidade.

Mas eu falo também do lugar do cara que anulou o voto nas últimas eleições presidenciais, do lugar do cara que não se manifesta simplesmente porque não sabe o que outrora julgava saber. Eu falo do lugar do cara que, de modo geral, também não se sente representado, e, quando se sente, teme aderir ao pacote com tudo o que vem dentro.

Eu falo do lugar do sujeito que se viu mergulhado numa depressão que teve significativa contribuição de gente cujo discurso era puro “amor”, “tolerância” e “empatia”...

Portanto, por favor, cuidado com o que fazemos aos outros, com o que deixamos de fazer e, principalmente, com a beleza do discurso que se sobrepõe às efetivas ações em prol do nosso próximo, aquele com o qual estamos comprometidos, até o pescoço, a despeito de nossas bandeiras, queiramos ou não.

Vacina, saúde, paz, liberdade de expressão, Educação pública e de qualidade e amor... muito amor para você, meu irmão.

quinta-feira, 3 de junho de 2021

O gozo do envelhecer


Sobressaltado, praticamente saltei do sofá ao toque do interfone. 10h30. Os malditos cinco minutos! O plano era simples, mas infalível: havendo ido para a cama quase às três da manhã e cheio de compromissos para este dia, programei o despertador para as sete e deitei-me no sofá, certo de que a ausência de conforto me impulsionaria a não permanecer em repouso quando raiasse o dia. Ledo engano... Despertado pelo alarme do smartphone cuidadosamente colocado a uma distância que me obrigaria a me levantar, o que fiz foi confiar nos famigerados “cinco minutos” a mais que, depois de certa idade, se tornam a nossa perdição. “Só mais cinco minutos”. E esses viraram horas, que, por sua vez, alteraram todo o curso do dia.

É curioso como eu ainda idealizo em mim aquele Alex dos tempos de faculdade, que, diante da necessidade de conciliar trabalho e estudo, virava a noite diante do computador, saía às seis para uma jornada de oito horas para, em seguida, ir direto para a universidade por tanto tempo sonhada. Aquele Alex dava conta disso. Ficava sonolento, é verdade, mas dava conta do recado.

O Alex de agora, porém, a três primaveras dos quarenta anos, pode até varar madrugadas, mas a conta, fatalmente, vem durante o dia. O Alex de então, ainda não desapegado do jovem de outrora, ainda faz planos mirabolantes, matriculando-se em cursos e sobrecarregando a agenda de tarefas, ignorando, porém, que sua energia não mais suporta a sobrecarga de outros tempos. O Alex de então carece de pausa, de fins de semana com descanso e oito horas de sono diárias. O Alex de agora já começa a preferir a escada rolante aos degraus comuns; o Uber ao ônibus que não vai deixa-lo na porta; o prazer solitário ao sexo casual que, possivelmente, vai causar desgaste emocional.

Sinto que – apesar das linhas de expressão, dos cabelos rareados e dos pelos brancos na barba – ele ainda se cobra o desempenho dos vinte e poucos anos. Não tanto por resistência ao envelhecimento em si, mas por exigir de si a compensação dos anos perdidos para a depressão e escolhas equivocadas.

O Alex de então se cobra, aos 37 anos, uma realização que justifique todo o investimento feito pelos pais ao longo de anos. O Alex quase quarentão se cobra aquelas conquistas que a grande maioria dos amigos fez aos vinte. O Alex de então quer correr atrás do prejuízo.

O corpo, porém, é implacável em pedir pausa e readaptação. Não me refiro a abrir mão de sonhos e ambições, elementos tão necessários à manutenção da vida. Refiro-me a uma nova dinâmica, adequada às possibilidades de então. Quem sabe uma alimentação mais consciente? Atividades físicas regulares, talvez (com certeza)? Terapia? Cursos EAD em lugar dos presenciais? Uma nova organização em termos de horários e afins? Enfim, uma dinâmica que acompanhe o não raro intransitivo verbo envelhecer.

Isso me faz lembrar daquelas atrizes belíssimas que, outrora interpretando mocinhas nas telenovelas, com presença frequente nas tramas do horário nobre, ora são convidadas aos papeis de mães das mocinhas do momento. Vale o mesmo para os galãs de outrora, que agora são o pai, o médico da família, o padre etc. E, a despeito dos procedimentos estéticos possibilitados pelo trabalho, o próprio trabalho é infalível em fazê-los lembrar da inexorável passagem do tempo.

A vida faz assim com os artistas globais, mas o faz também com os anônimos, com os Alex do mundo afora, que não estão sob os holofotes, mas também experimentam o democrático processo de envelhecimento.

Mas se as tramas televisivas relegam a maturidade a um papel de coadjuvante, restringido a beleza da existência humana a uma única fase, não precisamos e nem devemos reproduzi-lo em nossa vida real.

E é nesse sentido que, no final das contas, esse Alex dos quase quarenta, em perfeita comunhão com o jovem idealista dos vinte, aprende a entender esse processo que é viver não como a corrida do ouro, mas como um constante convite a cuidar de si para, então, estar apto a cuidar dos demais.

Aos poucos, ele entende que desapegar-se da vitalidade e das possibilidades dos vinte tem a ver, sobretudo, com saber viver, que, por sua vez, equivale a saber morrer.