Título original: Hairspray
Ano: 2007
Direção: Adam Shankman
Roteiro: John Waters (roteiro de 1988), Mark O'Donnell (peça musical), Leslie Dixon (roteiro)
Gênero: Comédia/Drama/Musical
Origem: Estados Unidos/Reino Unido
Duração: 117 minutos

O meu ingresso na idade adulta é marcado por, dentre tantas coisas, minha compreensão da Sétima Arte como boa oportunidade de se promover a humanização, tal é a possibilidade de que um filme seja origem de determinadas reflexões. Hairspray – Em Busca da Fama se encaixa na minha concepção de cinema com tal perfeição, que impressionou a mim mesmo. Confesso que, até então, filmes do gênero comédia não me haviam proporcionado grandes reflexões, e as poucas que houveram logo caíram no esquecimento, ficando em minha memória tão somente as boas risadas que o filme me fizera dar. Hairspray, no entanto, conseguiu ir além disso, uma vez que munido não apenas de piadas e cenas inusitadas, mas também de romance, crítica e otimismo.
Infelizmente ainda não tive a oportunidade de assistir na íntegra à versão original do filme, de 1988. Mas julgo que tanto o filme de John Waters como este remake de Adam Shankman apresentam-se como excelentes filmes para os seus respectivos tempos. A crítica que Hairspray – Em Busca da Fama faz à segregação racial e aos padrões de beleza se dá de modo que o filme caia como uma luva para o século XXI. A história se passa na década de 60, o que é apenas um recurso do roteirista para que o racismo seja abordado de maneira mais enfática (atualmente, não há problema nenhum no fato de negros e brancos aparecerem juntos na TV, muito embora o preconceito ainda existente faça com que poucos negros consigam chegar “lá”), mas sabemos que o filme está longe de objetivar uma mera conscientização histórica, sendo, sim, uma denúncia à intolerância dos dias atuais.
Ao contrário de alguns filmes que levam o telespectador a desejar que o par romântico protagonista se desfaça, sem final feliz, Hairspray consegue dar vida ao romance dos seus personagens. O telespectador acredita na paixão entre Tracy e Link, Penny e Seaweed, Edna e Wilbur. E isso ocorre não é devido ao excesso de cenas românticas (não há tal excesso no filme), mas por causa das cenas musicais como I Can Hear the Bells, (You're) Timeless to Me e Without Love. Aliás, algumas das tantas cenas musicais contidas no filme merecem destaque, uma vez que marcam momentos decisivos da trama: Welcome to the 60s, quando a personagem Edna supera seus medos, graças à insistência de Tracy, que, ao início da canção, diz “Estamos nos anos 60. As pessoas diferentes serão aceitas!” Essa bela afirmação, unida às belíssimas vozes de Terita Redd e Shayna Steele, além do momento
You Can't Stop the Beat dispensa comentários. Não posso negar que o grande problema da trama – a segregação racial no Programa Corny Collins Show – é resolvido com muita facilidade, de forma um tanto superficial. A personagem Inez Strub se torna a principal dançarina do programa, após ser a mais votada na competição. Ela, todavia, mal aparece dançando, e, quando aparece, dá apenas uns passinhos fracos. A alegria dos personagens, no entanto, é contagiante; Amber e Velma Von Tussle têm um fim merecido (e engraçadíssimo!). Em um final alternativo, Velma ia presa, o que seria meio que exagerado no contexto do filme. Merece destaque a caracterização inesperada de Tracy, tal como a atitude solidária dessa e do personagem Link, ao juntarem-se aos seus amigos Penny e Seaweed, quando esses, inebriados pelo seu amor e pela música, entram no palco impulsivamente. Se a aparição de negros e brancos dançando juntos na TV era um absurdo, imagine então a aparição de um negro e uma branca em demonstrações de afeto. Destaque também para a belíssima aparição da personagem Edna nesta cena. Não é apenas Tracy que fica surpreendida ao ver sua mãe entrar no palco, mas também o telespectador. Observe o movimento que ocorre atrás de Edna quando essa entra. Não sejamos ingênuos, nenhum dos dançarinos sabia da existência de Edna. O movimento se dá pelo simples fato de que aquela Edna esconde o grande John Travolta, fenômeno dos musicais de outrora. E convenhamos: ele bem que merece. Embora neste filme ele não se apresente maravilhosamente como dançarino, sua interpretação é brilhante!
Os personagens de Hairspray têm vida própria: Tracy (e creio que Nikki Blonsky também) é tão carismática, assim como o simpático Corny Collins, que aparece sorrindo em praticamente todas as suas cenas. O personagem de Zac Efron parece-me um tanto apagado e caricato, mas a sua interpretação é boa, e, convenhamos, com aquela aparência ele não precisa ter interpretação perfeita. Elijah Kelley defende bem o seu personagem e apresenta-se tão sedutor quanto o Johnny Castle, de Dirty Dancing. Ao lado dele, temos Cynthia Rhodes em sua excelente interpretação de boa amiga e adolescente apaixonada disposta a passar por cima de tudo para viver o seu amor. Tracy, Edna, Wilbur, Sr. Pinky, Corny Collins... todos são personagens humanitários e essa é a principal beleza do filme.
Hairspray talvez peque por apresentar uma história em que os negros parecem não lutar se não tiverem o apoio de um branco. Todos pareciam tão satisfeitos com o chamado “Dia do Negro”, tão resignados. Até mesmo a idéia de se realizar uma caminhada até à emissora parte de Tracy. Bom, mas talvez eu deva reconsiderar a minha colocação, pensando-se no fato de a história se passar na década e 60. Outro ponto é que, no momento final, percebe-se que todos os dançarinos e toda a platéia está tão feliz com a premiação de Inez e com a decisão de Corny Collins de que, dali em diante, o seu programa seria para sempre integrado. O racismo, então, parte apenas de Velma e Amber? Toda a luta de Tracy e dos negros foi apenas contra elas? Há também novamente o fato de Inez vencer a competição. Sinceramente, pareceu-me a melhor escolha (seria previsível demais se Tracy fosse a vencedora), mas parece-me no mínimo improvável que ela recebesse tantos votos.
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